A Ilha de Tristão da Cunha surge como uma interferência no mar sem fim. Perdida em algum lugar do Atlântico Sul, a meio caminho do continente antártico, abriga uma única povoação com o poético nome de Edimburgo dos Sete Mares. É considerado o assentamento humano mais remoto do planeta. Lá vivem 280 pessoas. Ou 279. Ou 281. Tanto faz. Lá vive gente. Há uma igreja católica e outra anglicana, uma escola e um posto dos correios, além do pequeno porto, que durante muito tempo foi a única conexão da ilha com o mundo exterior. Hoje tem televisão, internet, telefone. A vida por lá deve ter virado um inferno muito parecido com o nosso. Mas lá na pequenina Edimburgo mora gente. É preciso repetir a oração para não esquecer que além de uma formação vulcânica em forma de cone, por ali andam medos, desejos, frustrações. Por aquelas ruelas estreitas desfilam sentimentos tão infinitos quanto o mar que se esparrama por todos os lados. Haverá em Tristão da Cunha alguém para amar? Sim, entre rochedos escarpados, entre o ir e vir de uma onda no mar gelado, no vento que bate na ilha no meio da tarde. Haverá alguém interessante por quem valha à pena largar tudo, e passar os dias estranho, sorrindo pelos cantos? Haverá alguém com quem possa se acordar e dormir pensando nela? Haverá alguém cujo olhar seja mais cortante que o vento austral? As interrogações se acumulam e estragam o texto. Em Tristão da Cunha a manhã se espalha como a chuva na festa de Nossa Senhora da Assunção.
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6 comments
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Maio 4, 2009 às 2:01 pm
Hélio Jorge Codeiro
Que legal, enfim leio agora sobre tal lugar!
Mas, saiba que tão isolada quanto Edimburgo dos Mares, é Lajedo dos Calangos, lá no sertão; lugar onde o vento, não só faz a curva, como vira de ponta cabeça qualquer bicho vivente, além de deixar as sombrinhas das mulheres pelo avesso e suas saias na cabeça. Lá urubu canta e cobra assovia em bimenor. As pessoas que lá vivem, trepam na rede, têm filhos na rede, dormem na rede, bebem e comem na rede, morrem na rede e, é claro, são levadas pro cemitério na rede. Lugarzinho onde a acauã canta a tardinha, enquanto o sol, maior que o horizonte, se esvai por detrás dos lajedos que dá nome ao lugarejo. Lugar rodeado por um mundão de pedras. Um lugar tão isolado que foi esquecido por este país injusto e hipócrita em que vivemos!
Maio 5, 2009 às 11:30 am
dani
adoro esses teus textos sabe?
adoro você também!
Maio 5, 2009 às 7:03 pm
marjoriebier
Veja bem, Felipe Damo… queremos tu aqui no próximo sarau (nem sei o dia, mas vai ser em junho). O povo tá “alvoraçado” querendo saber quem é o cara q escreve bonito.
Maio 5, 2009 às 8:33 pm
felipedamo
como diria meu guru, Magal, me chama que eu vou…
Maio 5, 2009 às 11:52 pm
altemir
informativo e belo
Maio 6, 2009 às 4:17 am
enzo quaker
felipe, que coisa linda de morrer.