Nasci numa Quarta-feira da Paixão na descida da Serra do Mico, onde a estrada faz uma curva. Era outono. Quase morri antes de fazer um ano. Depois me engracei pela vida e nunca mais parei de viver. Na infância fiz muitas coisas sérias: apanhei chuchu no telhado da garagem; montei uma banda que só tinha um baterista tocando um balde virado; tive criação de lagartas e escalei em tempo recorde o abacateiro lá de casa. Aos sete anos vim pra Itajaí. Morei na Rua das Sete Casas, onde o meu quintal era o mundo. Namorei todas as meninas do bairro. E elas não sabem até hoje. Já fui palhaço, vendedor ambulante, professor de inglês, empacotador de carne de siri, tradutor, seminarista. Já trabalhei na roça plantando arroz. Já apresentei baile de debutante. Já dei a volta ao mundo com uma mochila nas costas. Virei comunista e comecei a dizer poesias. Casei. Separei. Já fiz um filho, já plantei muitas árvores, e agora estou escrevendo um livro. Mas tudo isso me parece tão pouco. Passei a vida a me procurar. Me encontrava todos os dias pra me perder de novo, logo em seguida. Tive tudo. Perdi tudo. Mas meus dias sempre tiveram fundo musical. Aprendi que a vida vale a pena, e ser feliz é a lei, e nunca mais esqueci disso. Toco violão. Falo inglês. Sou jornalista. Sonho sem parar. E acho que estou gostando da menina mais bonita.