felipe damo parou de escrever e foi viver um pouco…
Escuto teu nome
Na fila da padaria
Sei que não falam de ti
Mas é teu nome que escuto
E ele vem
Por entre as outras palavras
Que povoam a manhã
Em uma panificadora
Desviando das mesas e bancos
Teu nome se esquiva entre os vocábulos
[Um senhor fala ao telefone:
O contrato será fechado.
Uma senhorinha pede se o pão
Ainda está quente.
O rádio dá os resultados
Do futebol de domingo.]
Mas teu nome resiste às palavras alheias
Chega intacto
Ao outro lado do salão
Onde até então eu estava
Tomado pela sonolência
Da manhã de segunda-feira
Teu nome se desdobra
Exerce uma estranha influência
Em tímpanos, bigornas, martelos e estribos
Teu nome desvia por dentro de meu corpo
E chega ao coração que palpita nervoso
Vem uma vontade enorme
De sair gritando teu nome
Na rua entre os carros
Que se amontoam no semáforo lento
Entre os pombos que se demoram
Na calçada do Correio
Entre as pessoas que caminham
Pela rua em contramão
Ah, quantas terão teu nome?
E olharão assustadas
Pensando se tratar de um assalto
Ou briga
Ou mesmo
De uma declaração de amor
Quanto terei que gritar até que
Enfim me escutes
Do alto desse edifício
E pela vidraça azulada
Possas sorrir pra mim
aos poucos te afastarás de mim. tudo começará sem muito barulho, sem que qualquer um de nós perceba de fato o que está acontecendo. um dia ficarás longe de mim, e nem sentirás falta. no começo parecerá estranho, mas aos poucos iremos nos acostumando com nossa não-presença. aos dias que se vão, acompanharão os beijos. depois os carinhos, as conversas intermináveis, os elogios e – aos poucos – representaremos cada vez menos para o outro. chegará ao ponto de sermos amigos. apenas amigos. faremos coisas que amigos fazem. sairemos na tarde de sábado. dividiremos a pizza. assistiremos a um filme b. e com o tempo até a nossa amizade será um estorvo na minha e na tua vida. no sendero por onde desfilaremos nossos novos amores não haverá mais espaço para nós dois juntos. as viagens, os amigos, o dia chuvoso, a visita dos parentes distantes. tudo o que nos mantinha unidos agora será desculpa para ficarmos cada um em seu canto. e nossa amizade, ela também, irá – aos poucos – se desmanchando entre os dedos de nossas mãos, que já não se tocam, já não se afagam. então virão os intermináveis meses que passaremos sem nos ver, sem nos falar e, um dia, sem ao menos ouvir um do outro. não perguntarei mais de ti. tampouco tu de mim. estaremos sempre em lugares diferentes. e nossos amigos nem mais estranharão que não apareceremos mais juntos nas festas, na praia, no mercado. tu te esquecerás de mim. e outra irá se deitar na tua cama. tu chamarás a ela de “meu bem”. e nós, nós seremos dois desconhecidos. eu e você. um dia nos cruzaremos em uma dessas ruas do centro da cidade. como dois estranhos, sem reconhecer nossos olhares, tentaremos lembrar, enfim, de onde nos conhecemos. e não nos lembraremos.
I.
Haverá um dia para a poesia
Longe de tudo isso
Que hoje se chama mundo
Chegará o dia em que os homens
Vão se render
A um poema
E o trânsito
Os viadutos
As liquidações
Os auto-falantes
As máquinas industriais
Em ato-contínuo
Se curvarão à poesia
II.
Mulher
Tu amas um poeta
E um poeta te ama
Deixe que ele escreva
Teu nome no céu
Deixe que ele te pegue pela mão
Que te diga besteiras
Nessa hora morta
De tua existência
Mulher
Teu nome é futuro
A poesia te espera
Na próxima esquina
Tu amas um poeta
E um poeta te ama
Nada mais pode dar errado
[não considerem isso um post...é um estado de espírito, vamos deixar a literatura de lado um pouco e lembrar que isso é um blog]
Todos os dias você acorda – pelo menos comigo é assim – abre a cortina do quarto, olha para o mundo lá fora e pensa que tem duas opções: ou ser feliz ou ser triste.
Hoje eu abri a cortina e decidi ter um dia feliz. Apesar do trabalho cansativo. Apesar dos meus atrasos eternos. Apesar do tempo que escapa. Apesar das notícias tristes do jornal. Apesar da luta que não finda e, por vezes, é ingrata. Apesar de eu te ver menos do que gostaria. Apesar das inúmeras tarefas que eu mesmo tenho comigo. Apesar do meu cansaço. Apesar das minhas fraquezas. Apesar das limitações do meu caráter, do meu corpo e do meu espírito. Apesar do Botafogo, que não tem jeito. Apesar de eu ser um homem muito distante daquele que eu gostaria de ser. Apesar do dia nublado. Apesar das vagas cada vez mais escassas de estacionamento no centro da cidade. Apesar dos textos que estou devendo. Apesar dos fascistas de direita que oprimem os trabalhadores. Apesar da fila na porta da barbearia. Apesar de eu não poder ter contigo a vida que eu gostaria e que você, talvez, mereça. Apesar da guerra civil na Tailândia. Apesar de eu falar de sempre e você falar de às vezes. Apesar do porta-luvas estragado. Apesar da conta no banco. Apesar da gripe suína. Apesar das flores do meu ipê que, por descuido, eu só vi depois de caídas. Apesar de eu ter devolvido aquele livro sem ter lido com a calma que queria. Apesar dessas olheiras. Apesar do passeio que estamos nos devendo. Apesar de ontem, quando eu devia ter te beijado mais. Apesar da música sertaneja. Apesar do cheiro da dobradinha no fogão. Apesar do meu horóscopo, que insiste em dizer que o dia será tenso, pesado e delicado.
Hoje é quarta-feira, seis de maio. Apesar de tudo isso, eu vou ter o melhor dia da minha vida.
A Ilha de Tristão da Cunha surge como uma interferência no mar sem fim. Perdida em algum lugar do Atlântico Sul, a meio caminho do continente antártico, abriga uma única povoação com o poético nome de Edimburgo dos Sete Mares. É considerado o assentamento humano mais remoto do planeta. Lá vivem 280 pessoas. Ou 279. Ou 281. Tanto faz. Lá vive gente. Há uma igreja católica e outra anglicana, uma escola e um posto dos correios, além do pequeno porto, que durante muito tempo foi a única conexão da ilha com o mundo exterior. Hoje tem televisão, internet, telefone. A vida por lá deve ter virado um inferno muito parecido com o nosso. Mas lá na pequenina Edimburgo mora gente. É preciso repetir a oração para não esquecer que além de uma formação vulcânica em forma de cone, por ali andam medos, desejos, frustrações. Por aquelas ruelas estreitas desfilam sentimentos tão infinitos quanto o mar que se esparrama por todos os lados. Haverá em Tristão da Cunha alguém para amar? Sim, entre rochedos escarpados, entre o ir e vir de uma onda no mar gelado, no vento que bate na ilha no meio da tarde. Haverá alguém interessante por quem valha à pena largar tudo, e passar os dias estranho, sorrindo pelos cantos? Haverá alguém com quem possa se acordar e dormir pensando nela? Haverá alguém cujo olhar seja mais cortante que o vento austral? As interrogações se acumulam e estragam o texto. Em Tristão da Cunha a manhã se espalha como a chuva na festa de Nossa Senhora da Assunção.
Sou obrigado a tocar no assunto apesar da chatice melodramática do tema. Mas tem coisa que bota a gente pra emburrar de um jeito que não conserta mais. As pessoas precisam se resolver. Precisam ser francas e honestas com as outras. E precisam ser corajosas a ponto de terminar logo o que não vai dar em nada.
Bom, o texto podia terminar aqui que o autor já teria dado o recado. Mas vamos lá, vou explicar esse fim que se apresenta logo no começo pra não correr o risco de ser incompreendido. Se for incompreendido também, azar. Como diria o Carpinejar, então estaremos quites.
O caso em questão é bastante prosaico. Ele empata a vida dela. Ou ela empata a vida dele. Ou ele empata a vida dele. Ou ela empata a vida dos dois pobres coitados. Hoje em dia tem cada combinação amorosa que não é preciso de muita criatividade pra pensar essa teoria dos conjuntos aplicada à vida conjugal.
Mas é assim que funciona: ele a quer para passar um tempo, pra ter alguém, pra sair de vez em quando, pra dizer que não está sozinho. Ela quer uma relação longa, séria e para sempre. Ta na cara que não vai dar certo. Ele sabe disso. Os amigos dele sabem disso. A mãe dele sabe disso. A irmã também. A mãe dela sabe, mas não fala. As amigas dela sabem, mas não têm coragem de contar. Até a moça que vende Avon sabe. Tá na cara.
Só ela que não percebe. Ela ainda acredita que com o tempo ela vai levando, vai dobrando o cara durão, até que uma hora ela vai se tornar a melhor opção pra ele. E depois, ah, depois de tanta coisa vivida junto, de tanta alegria, tanto sofrimento, ele não vai querer acabar pra começar tudo do zero com outra que, no fim das contas, será igual a ela na maioria das coisas. Mas ele não quer nada com ela. É fato. E ainda assim ele fica empatando a vida dela.
Talvez ele tenha medo. Medo de terminar, mas ao mesmo tempo, medo de viver uma relação corajosa. Tem que ser macho pra amar. Aqui a concordância feminina também vale. Quem não é macha não ama de verdade e acaba vivendo esses amores de mulherzinha. Já tive mulheres que não foram machas pra me amar. E já devo não ter sido macho suficiente pra amar algumas mulheres. Mas nunca empatei a vida de ninguém. Não deu certo? Vamos lá!
Se ele está sempre emburrado, faz pouco caso do que você pensa, nunca está contente, nunca ri pra valer, chora pra valer, se declara pra valer, goza pra valer. Dê um pé na retaguarda dele. Manda essa mala embora.
A vida é muito curta, pessoal. E a vida não nos concederá outra chance. Vamos resolver as nossas vidas, acertar o astrolábio na estrela da manhã e viver uma vida onde ao deitar pra dormir a gente tenha certeza de que naquele dia só não deu pra ser mais feliz por falta de tempo.
Se não está feliz com ela, caia fora. Não vá ficar iludindo a menina. Ele não é o cara certo? Seja honesta ao menos uma vez na vida. Jogue limpo. Acabe logo com isso. Vocês merecem alguém de verdade. Os tempos são outros, agora pode tudo, só não pode não ser feliz por besteiras assim como essas.
A vida é pra viver. Bola pra frente. Não empate a vida de alguém.
talvez falte dor
talvez faltem versos
poesia eu sei que me falta
esse estar poético
que tudo explica e tudo sente
ando tão calado
ando tão silente
ah, Deus!
me cubra de sentimentos verdadeiros
não quero sair por aí
a catar palavras
nesse imenso jardim
abençoai-me, senhor, de versos
as rimas eu dispenso
a verdade não
embora meus poemas sejam delicados
que não seja neles a realidade uma ausência
senhor, te peço poesia,
não clemência
não quero morrer
com o nome dela em minha boca,
mas sim com um verso de liberdade
tatuado no sangue profundo e quente
dos meus olhos cansados
As mãos não conseguem escapar do tempo. Pelas mãos se sabe a idade de uma mulher. As dela estavam escondidas. Era cedo de manhã, na biblioteca da universidade. Em uma fila onde havia apenas ela e eu. A calça justa firmada nas botas que avisavam que o inverno estava chegando. Um blusão claro coberto pelos cabelos que levemente se deitavam sobre os ombros postos. Apoiada no balcão, curvada, com os quadris erguidos tentava olhar a tela do computador, equilibrando as pernas na ponta dos saltos. A biblioteca não é o melhor lugar pra se observar certas paisagens. Para provocar, ou não – nunca vou saber – jogou os calcanhares para fora, em um movimento logo retomado em direção oposta. Parecia chamar para um abraço infinito entre as coxas naquele dia frio. Por sobre os ombros olhou em um ângulo onde só estávamos eu e a estante de periódicos dos anos 90. Parecia saber que estava sendo observada, assim como a gente se sente em noites mal-assombradas. Ela só não ouviu passos porque eu estava ali, estático, com meia dúzia de livros nas mãos. Ou talvez tenha ouvido os passos do meu espírito se aproximando, rente ao seu dorso. Respirando o ar quente de seu corpo. Voltou o olhar para a frente. Talvez não tenha me reconhecido de outras vidas, assim como eu também não o fiz. Firmou as mãos no balcão com delicadeza. Jogou os cabelos pro lado esquerdo, tomou os livros e foi embora. Uns trinta anos, sentenciei. As mãos não mentem.
Bóreas brinca comigo
Todo outono e meio
Não consigo entender teu amor
Como não consigo entender o vento
Ambos beijam meu rosto e depois fogem de mim