Rurais – V

as folhas se multiplicam
é outono
você diz

eu sozinho
olhando a grandeza
do campo aberto

eu sem limites
me misturo às folhas
eu sem limites
entrelaço o capinzal
com meus braços
meus cabelos
minhas veias
sem limites me enverdeço

de um verde pardo
de um verde parco
do verde palha do arrozal

me curvo como o outono
como o ocaso dos dias
como um engano
como um salgueiro que assente
solitário no outeiro

eu olhando aquela linha tênue
do horizonte esverdeado
me curvo
como em oração
eu que nem sei rezar
do verde faço
minha religião

Deleite

Eu. Tua nutriz. Me faço mulher. Me fazes mãe. Me faço líquida. Teu leite. Teu alimento. Meu deleite de todas as horas. Dos minutos que sou só tua. De teus momentos de choro e riso. Deleite de todos os teus olhares. Em manhãs. Tardes. Noites e madrugadas. Na profundidade de nossa natureza. Esse jardim íntimo de sussurros e gestos. Nosso paraíso particular habitado por pequeninos segredos. Tão nossos como tuas delicadas mãos pousadas sobre meu peito. Te embalo. Te acalento. Tomas o que é teu. Meu amor. Teu alimento. Eu.

Há uma noiva no Porto

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Roteiristas que migram para a literatura carregam consigo os bons cacoetes da sétima arte. Conduzem a história desfazendo o fio da narrativa e quando você percebe o livro vai se corporificando à sua frente, como se fosse um filme, com a construção das personagens e o ritmo das grandes telas.

O cinema já cedeu grandes roteiristas à literatura e um dos mais novos nomes que aparecem no mercado editorial brasileiro é do pernambucano Hélio Jorge Cordeiro, que acaba de lançar em terras tupiniquins seu quarto livro, A Noiva do Porto (Chiado Editora, Lisboa, 152 pág.), previamente lançado em Portugal.

Em uma trama que chega a lembrar de Almodóvar, a obra de Cordeiro é repleta de referências, intencionais ou não. De uma página salta algum paralelo ao escritor argentino Jorge Luís Borges, acolá uma cena que lembra o final folhetinesco de uma novela dos anos oitenta, os antagonistas se edificam como vilões de clássicos de Hollywood, e por aí toca a banda. Como nos filmes, flashbacks e inserts dão o tempero à narrativa. Tudo isso flanando pelas ruas e paisagens da cidade do Porto, da qual o livro é mezzo guia turístico, mezzo declaração de amor.

A Noiva do Porto conta a história de Elis, uma jovem portuense – ou tripeira, como se diz além-mar – cujo sonho de se tornar noiva por um dia vai se desenrolando ao passar das noites e dos capítulos. Muito distante da onda wedding que o país experimenta atualmente, o livro de Cordeiro poderia até ser considerado um thriller policial repleto de idiossincrasias, dramas psicológicos e salpicado pelas dificuldades inerentes às jornadas em busca de um ideal.

Com um final surpreendente e um desfecho que faz com que o leitor una todas as pontas ainda abertas da narrativa, tal qual no cinema, A Noiva do Porto é uma obra vibrante, que coloca Hélio Jorge Cordeiro um degrau acima em relação a seus outros livros.