Rurais XIII

O céu é o país dos pássaros

Com sua bandeira azul

Desfraldada já no amanhecer

Estandarte salpicado de cirros brancos

Hasteado no mastro tênue do horizonte

O sol contempla a nação alada

Guardião do esplendor dessa pátria

República livre

Território infinito de fronteiras etéreas

Com estradas projetadas pelos ventos

E rajadas térmicas

Rotas aéreas

Ás vezes invadidas por algum avião desavisado

Ás vezes divididas por um risco de nublado

Esta democracia das aves

Este céu azulado

 

Rurais XII

Existe um ribeirão
Que corre para o norte
Contornando as pedras
E o relevo de sua própria sorte

Transpondo pontilhões
Desenhando grotas na terra
Assim segue o ribeirão
Que desce da serra

Entre os salgueiros debruçados
Vai o ribeirão se marejando
Na sombra da tarde calma

Sem saber que ao chegar
Ao fim dos caminhos e ao mar
Encontrará enfim sua alma

Rurais XI

As azaleias enfeitam
a curva
da estrada
e alegram o cinza
da tarde
nublada.

Fosse eu
um céu,
uma pétala,
um pedaço
de jornada.
Fosse eu
uma curva,
uma fuga,
uma nuvem
carregada.

Ainda assim seria
mais que a noite
mais que o dia
mais que a madrugada
mais que toda
idiossincrasia
de cada hora lavrada.

Seria uma estrada bela
Um pedaço de terra rosada.

Rurais X

O amor se esconde no campo
Por entre a folhagem do bosque
Nos caminhos sombreados
Que levam aos descampados
Nos ventos das morrarias
E nos brotos que já nascem
por amor curvados.

Na floração da primavera
Na tempestade estival
Na coloração do outono
E na geada invernal.

O amor se esconde no campo
Nos dias que nascem mais cedo
Mas noites em que a lua dança
Por detrás do arvoredo.

O amor se esconde
Na florada dos dias
Na estiagem de maio
E no silêncio das romarias.

No campo é assim o amor
Delicado e calmo
Escondido
No verde da capoeira
Nas horas da tarde inteira
No canto de um passarinho.

Rurais IX

O dia passarinheiro
abre suas asas
num bem-te-vi primeiro.
Depois deixa o ninho
canarinho
e assim
de mansinho
o dia passarinho
deixa inquieto
o forneiro.

Sobrevoando a campina
quero-quero em sua sina
de defender o campo.
E numa silva de canteiro
o sabiá ligeiro
a semitonar o canto.
Distante da andorinha
que rasga o céu inteiro
fazendo acrobacia
no dia passarinheiro.

Rurais – V

as folhas se multiplicam
é outono
você diz

eu sozinho
olhando a grandeza
do campo aberto

eu sem limites
me misturo às folhas
eu sem limites
entrelaço o capinzal
com meus braços
meus cabelos
minhas veias
sem limites me enverdeço

de um verde pardo
de um verde parco
do verde palha do arrozal

me curvo como o outono
como o ocaso dos dias
como um engano
como um salgueiro que assente
solitário no outeiro

eu olhando aquela linha tênue
do horizonte esverdeado
me curvo
como em oração
eu que nem sei rezar
do verde faço
minha religião

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