O escritor francês Albert Camus certa vez afirmou que o suicídio era a grande questão filosófica de nosso tempo, pois respondia a uma pergunta fundamental da filosofia: se a vida merecia ou não ser vivida. Essa inquietante pergunta do Nobel francês foi retomada e se transformou no tema de partida da obra “O Suicida”, recém lançada em Itajaí pelo romancista Hélio Jorge Cordeiro, pernambucano radicado na cidade peixeira.

Atuando há muito tempo como roteirista no cinema nacional e também em terras estrangeiras, Cordeiro aventura-se desta vez na intrincada trama sobre a qual um romancista conta sua história. Com um estilo elegante e fluente até demais para um primeiro romance, ele narra em primeira pessoa a história curiosa e sempre salpicada de graça de um certo Arlindo que, à beira de seu cadafalso particular, tenta lembrar o motivo pelo qual resolveu partir para o além de forma tão brusca. Aos poucos, o autor reconstrói a vida da personagem em seus momentos mais marcantes, em uma busca contínua e desesperada por razões plausíveis que expliquem aquela corda no pescoço que já aperta e sufoca.

Em um caso onde a arte imita a vida, os desencontros e reencontros de Arlindo com seu histórico de vida são lugar-comum a cada um que passa os olhos pela obra. As paixões da meninice, a descoberta da sexualidade, o choque da violência, os amigos, a família, o futebol, as obrigações cotidianas e o cinema. Temas presentes na vida de qualquer brasileiro minimamente comum nesta modernidade líqüida são motivos para histórias bem contadas que aos poucos vão sendo reunidas e costuradas pelas lembranças da personagem. Ao mesmo tempo, o autor faz do livro um retrato de um momento ainda recente na história do país, deixando no leitor a dúvida de até onde a ficção e a confissão se confundem.

 No tempo que passa entre a corda e o banquinho, Arlindo apresenta um diagnóstico das pequenas coisas que podem fazer um grande homem desejar a morte como solução final. De causo engraçado em causo engraçado, Cordeiro mostra ao leitor como uma vida feliz pode se tornar melancólica e dramática quando revisitada, uma vez constatado o inexpugnável e definitivo efeito corrosivo do tempo.

 O maior poeta que Açores já viu nascer, Antero de Quental, em um de seus sonetos lamenta que o tempo corre incessante e só gera “dor, pecado, ilusão, lutas horríveis, num turbilhão cruel e delirante”. Antero, assim como a personagem principal de “O Suicida”, decidiu um dia dar fim a sua vida. Com ele a tentativa deu certo e Portugal perdeu um de seus maiores poetas. O que aconteceu com Arlindo, cabe ao leitor descobrir.

 

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