Lá fora toca o sino de mais um domingo. As senhoras vão à igreja, cabisbaixas e silenciosas como a neblina que vai se desfazendo em Itajaí. Como são tristes as senhoras que vão à igreja. Parece que carregam nos ombros a culpa da humanidade. Tão puras e tão infelizes. Com suas roupas e seus cabelos parados em um tempo perdido. As cabeças baixas nem parecem lembrar ou tentam esquecer: hoje é domingo.

Elas acreditam em Deus. Acreditam que ele está lá repousado no sacrário, solene e calmo. Nem percebem quando passam e ele sorri deitado na grama de meu jardim. Esse meu Deus brincalhão. Às gargalhadas zomba das mulheres que transitam ao largo e não têm olhos para aquilo que é alegre e belo em uma manhã de inverno. São afeitas à tristeza e à dor deste mundo de amor cada vez mais ausente e esquecem o Deus menino que dança e canta no meu quintal.

            Aos poucos rio com a cena, apesar do inevitável mau humor típico das primeiras horas do dia. Hoje eu olho Deus ali e lembro com vergonha e carinho como sempre desconfiei dele. Era algo mais coerente com minha profissão socialista de mundo. O meu problema nunca foi acreditar ou não acreditar. Guardei comigo a inocência de uma criança, que não entende, mas reza toda a noite para que ele exista. A questão é que, em minhas orações, eu sempre um pouco que duvidei dele. E tenho a impressão de que a recíproca também foi a mesma. Toda essa minha apostasia talvez não seja nada mais do que uma resposta à descrença de Deus em mim. Algo como um trauma de filho rejeitado, no mais perfeito drama freudiano moderno, só que agora elevado às proporções e aos assuntos divinos.

Porém, naquele dia, na grama, eu percebi: Deus me amava. Como uma criança tentando fazer um amigo ele fazia as brincadeiras pra me conquistar. E depois olhava de rabo de olho, esperando a aprovação da minha testa franzida e apática. Eu só passei a acreditar em Deus de fato quando descobri – naquela manhã – que ele me amava. E ninguém melhor do que eu para saber o que é um amor não correspondido. Poemas. Cartas. A eterna espera por um sim que nunca é dito. Por um telefone que insiste em preservar o silêncio da sala vazia. Nenhum sorriso. Nenhum choro. O meu nome dito em muitas bocas, em muitas línguas, em muitos países. Menos naquela boca que eu quero.

Eu sei o que sobra do amor quando não há resposta alguma e ali no jardim, naquele domingo, eu percebi na clareza de um sorriso acanhado que ele me amava. Foi quando eu decidi. Jamais aceitaria reverenciar um deus com o coração partido. Foi então que eu o amei – entre as badaladas do sino da Matriz e o som seco e distante dos passos descrentes das senhoras que iam à igreja naquela manhã de domingo.

 

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