Um dia, no paraíso, Deus há de me confirmar que não existe infância verdadeira sem haver em nossos planos e pensamentos grandes amores infantis. Ao menos é isso que imagino sempre que lembro das meninas da Rua Maria da Glória.

Não importa o ano em que tudo aconteceu. Foi em algum tempo presente na minha meninice que hoje está cada vez mais distante e esquecida. Foi um tempo em que eu, criança, ao voltar exausto da escola, compartilhava algumas centenas de metros de meu caminho com as mais doces e delicadas criaturas que já existiram.

Eram três. Talvez quatro. As meninas mais bonitas da cidade. Seguíamos juntos todos os dias no percurso que ia da escola até o local onde nos separávamos, na Rua Heitor Liberato. Falávamos da vida, dos sonhos, dos amores. Ríamos de tudo. Porque quando se é criança tudo é motivo para alegria. Eu sempre escondi que fui apaixonado por elas. Por cada uma delas. Para todas imaginei uma longa história de amor, com filhos, uma casa de cerca branca, garagem para dois carros, a missa de domingo e o passeio de mãos dadas pela praça.

Foram tempos adoráveis. Quando as cidades de interior dos anos oitenta ainda eram ingênuas e pacatas. Quando todos se encontravam no centro da cidade para simplesmente gastar uma tarde interminavelmente bela e preguiçosa. Naquele tempo, shopping centers, redes de fast food, teatro e tv a cabo eram exclusividades das grandes capitais, distantes demais de nosso mundo interiorano. Também não havia tanta gente que tinha andado de avião ou que já tivesse conhecido a Europa. A universidade começava a aparecer como um objeto de desejo para alguns. Computadores e celulares não habitavam nem a nossa imaginação, que ainda vivia refém dos traumas da guerra fria e de seus botões vermelhos que em um segundo…zappp…botavam a perder o mundo. Tudo era provinciano e epicurista em Itajaí. E éramos felizes.

Naqueles dias, naquele pequeno trecho de mundo, em uma cidadezinha esquecida no hemisfério sul, eu-menino descobria que o êxtase supremo da vida residia no sorriso acanhado de outras poucas pessoas. Em uma esquina qualquer eu assistia meu futuro caminhar para longe de mim. E por ali eu me perdia. Vagava sozinho mais umas quadras entre os flamboyants floridos do Fiúza Lima, pensando nas grandes bobagens da vida e sonhando com as meninas da Rua Maria da Glória.

 

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