Caminho quieto e sozinho pelas ruas retas de mais uma cidade perdida no interior do país. Logo vai chover. As nuvens carregadas denunciam seu próximo movimento. O sol já não faz sombra nas torres da catedral.

Pela praça vazia dessa cidade cheia de silêncio e sábado passam um cão, um homem, um vento e uma sensação de letargia acostumada e íntima.

As azaléias me perguntam: já é primavera? Eu não respondo. Eu me calo. Do tempo o meu coração nada sabe ou ousa dizer.

Nas esquinas meus olhos vagabundos cumprimentam com alegria e graça velhos desconhecidos que passam. Aqui, homens e mulheres, jovens e crianças, sabem e não abrem mão de uma verdade: qualquer lugar é lugar para ser feliz.

Da loja de perfume uma moça sorri. Mas não sei se sorri para mim ou para o mundo que se mostra exibido depois da porta. Imperfeito como o meu andar nessas calçadas tortas.

Desfilo só por uma rua tomada de árvores e casarões centenários. Comigo desfila uma angústia que também é centenária. A angústia de um país inteiro. A angústia de um passado que foi embora, de um futuro que não chega e de um presente estático, que se demora em assombros, que fabrica hoje – como o faz todos os dias – seus próprios e preferidos fantasmas.

Mas aqui, como em Raíssa, a cidade, as coisas e a gente é feliz. À revelia da minha condição triste de poeta a moça da perfumaria sorri. Percebo que perdi a corrida louca por seu sorriso. Não era para minha angústia. Ela sorria para o mundo.

Volto então a caminhar na rua vazia. Cai uma gota. Já não é lágrima. É apenas a chuva chegando preguiçosa. Sorrio também. O mundo venceu. Chove no interior do país.

 

®Felipe Damo

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