Como era plácido aquele tempo quando tudo era binário. Era simples e fácil. Não nos era requerida prática alguma, tampouco habilidade, e qualquer criança sabia fazer. O mundo do sim e do não, do belo e do feio, do alegre e do triste. Maniqueu sorria de orelha a orelha com um universo prosaico que se apresentava diante de seu olhos naquela Babilônia que Bush nem imagina que existiu um dia.

Milan Kundera – o insustentavelmente leve autor tcheco – foi um dos que reforçou a bagunça quando recuperou o filósofo Parmênides e sua constante inquietação sobre o que era ruim e o que era bom. A dúvida de Parmênides estava no leve e no pesado. Naquilo que era possível sublimar ou não. A princípio o pesado é ruim, até parece óbvio. Mas quer saber por que isso é questionável? Leia a obra de Kundera, oras.

A astronomia também nos traz um exemplo sobre a confusão que foi deixar o sistema binário. Antes você tinha o sol e a lua. Apolo com sua carruagem de fogo e sua irmã Diana com seu arco prateado. Depois descobrimos que as estrelas, aquelas meras coadjuvantes, eram também milhares de sóis. Mais tarde apareceram os planetas – que eram nove, mas não param de aumentar de número. A seguir descobrimos que alguns planetas também têm luas. Veja bem, só Saturno possui dezoito luas. Dezoito luas? Ah, tenha dó! Tudo isso juntado aos cometas, nebulosas, buracos negros, meteoros do filme Armagedon com direito a Bruce Willis. Não tem quem agüente.

O fato é que as escolhas eram mais tranqüilas em um mundo de só duas opções. “Você me ama?” Perguntava o rapaz. E a resposta era clara: ou sim ou não. Hoje as coisas mudaram. “Você me ama?” E a resposta vem assim, meio de lado, na tangente da conversa: “Veja bem, André Luiz, amor talvez não seja a palavra mais certa pra ocasião…” e por aí vai uma coleção de eufemismos para justificar a dificuldade que as pessoas têm em definir o que não é binário.

E nos dias atuais, adentrando solenemente na Era de Aquário, veja que ironia a história pós-moderna nos aplica: justamente agora, onde tudo o que é de binário parece estar fadado ao ostracismo, experimentamos a aurora da tecnologia cibernética, onde todos os computadores funcionam justamente no sistema binário, com os famigerados Binary Digits, ou simplesmente bites. Em meio ao mundo multifacetado e plural, onde valores como a diversidade estão cada vez mais em alta, ainda resiste irredutível o bom e velho sistema binário.

São o antigo e o novo que, ao contrário do que muitos pensam, coexistem e se revezam em uma eterna luta pelo domínio da história e dos homens corajosos que a contróem sem medo e sem pudor.

®Felipe Damo

 

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