Para ele as coisas sempre aconteceram aos pares. Nasceu às duas horas do dia dois de maio, na cidade de Dois Vizinhos. Tinha dois nomes. Dois Sobrenomes. Dois irmãos. Tinha dois padrinhos e duas madrinhas. Mais tarde, quando alguém apertou no botão liqüidificar da sua vida, passou a ter dois pais e duas mães. E, por decorrência, duas casas. Na escola era certeiro em marcar as duas matérias da recuperação no final do ano: Física e Matemática. Tinha dois grandes sonhos: ser jogador de futebol daquele time do Rio de Janeiro e astro de cinema em Hollywood. Duas grandes dúvidas. “Afinal, de onde vim?” “E para onde vou?” Mas essa ditadura particular dos pares em sua vida também acontecia nas coisas mais simples. Na cozinha uma barata não aparecia sem a outra. Goteiras na casa, quando chovia, eram sempre duas. E na hora de fazer a garagem não teve dúvida. Fez logo pra dois carros. Relógios tinha dois, um em cada pulso, pra garantir. Duas gotas de adoçante não deixavam nem amargo e nem tão irritantemente doce. Dois pães eram a medida exata para o jantar. E duas colheradas de geléia bastavam para completar. Biscoito, só casadinho. Coca-cola levava logo aquela de dois litros. No almoço, sempre repetia. Para ele, uma só vela nunca deixou o clima romântico o suficiente. E dois planos vinham sempre a calhar. Dois pares de tênis. Dois pares de sapatos. E dois paletós. Devorava sempre dois livros ao mesmo tempo. Na música: Simon e Garfunkel. No teatro: Dois Perdidos em uma Noite Suja. No cinema: Dois é Bom, Três é Demais. Na tv: Vale a Pena Ver de Novo, porque afinal, uma vez só não era o suficiente. Os erros também vinham em dose dupla. Mas assim era melhor, errava tudo de uma vez e poupava um arrependimento além das duas vezes habituais nas quais jogava a cabeça contra as duas mãos espalmadas e dizia duas vezes com uma raiva redobrada de tudo: chega, chega. Teve sempre dois empregos. Em cada um deles, um sócio, já que nem trabalhar conseguia sozinho. Fez dois vestibulares. Começou duas faculdades. Trancou duas vezes. Por duas vezes pensou em retomar. Mas por duas vezes desistiu. Viveu a vida aos pares. O maior de todos os problemas era quando ele falava dos amores. Desde que começou a amar as paixões eram sempre dobradas. No ginásio: Júlia ou Ana? No colegial: Letícia ou Isabela? Na universidade: Márcia ou Helena? Meu Deus, meu Deus. Dizia duas vezes. Já pensou ter duas sogras? Ficava sempre na dúvida. E acabava saindo duas vezes, jantando duas vezes, comprando dois presentes para o dia dos namorados. Queria ter filhos gêmeos, mas com quem? Sentia duas vezes medo. Chorava duas vezes. E sofria por dois. Levou dois dias pra chegar a duas conclusões: Conclusão 1 – Não conseguia mais viver assim. Conclusão 2 – O que ele queria mesmo, era ter dois corações.

®Felipe Damo

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