Durante a ocupação nazista em Paris os homens de Hitler chegaram até o ateliê do pintor comunista Pablo Picasso e lá encontraram reproduções do célebre mural Guernica, onde são retratados os horrores da Guerra Civil Espanhola, em especial o bombardeio pelos aviões da Luftwaffe alemã à cidade que empresta o nome à obra. Ao deitar os olhos sobre aquela “arte degenerada” um dos oficiais nazistas perguntou a Picasso em tom de reprovação: “ – Foi você que fez isso?” E a resposta veio no mesmo ritmo da pergunta: “Não, foram vocês!”

 

Um sentimento parecido ao desta anedota clássica veio até a minha mente quando há poucas semanas assisti pasmo a reação da platéia do Sarau Benedito diante de um texto de Rômulo Mafra chamado “A puta da minha mulher”. No conto, o narrador relata uma cena sádica durante o ato sexual entre um casal casado. Ponto. Era ficção. Outro ponto. Mas as pessoas não entenderam. Reticências. E sobraram vaias e xingamentos para o texto e para o escritor. As pessoas queriam saber se o autor era o narrador, se ele se identificava com aquilo, se defendia o gesto do narrador. Foi a maior confusão e Rômulo Mafra conseguiu sair de bandido diante de toda a polêmica que só fez aumentar a fama, a leitura e a discussão sobre o texto.

 

Mas há que se ponderar: o escritor é um artista. Muitas vezes interpreta sentimentos. Na ficção isso ocorre de maneira abundante, apesar da assertiva de Quintana que dizia não ter escrito uma só vírgula que não fosse uma confissão. Mas Quintana é Quintana e não é Romulo Mafra. O escritor peixeiro poderia ter dado à platéia atônita a mesma resposta de Picasso. “Vocês fizeram isso, eu só coloquei no papel o que vejo nessa sociedade doente e sem rumo”. É a prerrogativa do escritor. Ao contrário não deveríamos mais escrever uma só linha sobre qualquer barbárie humana. Estupros, chacinas, crimes de toda a sorte seriam banidos das páginas de nossa literatura. E isso não resolveria de forma mágica cada um desses problemas, quando escrevendo sobre eles ao menos se propõe um debate mínimo e uma reflexão, ainda que superficial, sobre o assunto.

 

O Caderno Literário CLAP, onde o texto foi originalmente publicado, mudou desde então. Agora ostenta em seu frontispício um aviso recomendando sua leitura para pessoas “maduras”. O aviso soa irônico mas atesta uma verdade: nem todos estão prontos para a reflexão.

 

Rômulo Mafra não foi o primeiro escritor a polemizar com o público mesclando violência e sexo, tampouco será o último. Durante a conflitante história da literatura mundial fenômenos similares aconteceram às pencas, cada qual em sua época e com uma intensidade particular, pelo simples fato de que a história humana sempre foi repleta de estranhezas e aberrações. Algumas delas até parecem simplórias e bobas vistas na ótica atual. Cabe uma reflexão sobre cada uma. Talvez este seja o grande mérito do escritor. Escrever para anunciar, denunciar, provocar e transgredir. Os leitores que amadureçam.

 

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