*todas as pessoas e os acontecimentos deste conto são imaginários

 

 

 

 

 

“Onde você está?” A voz de M parecia saída de algum lugar dentro da minha cabeça, mas era só o telefone. Preciso perder essa mania de dormir de noite antes de sair ou vou desconfigurar pra sempre meu relógio biológico, que é uma das poucas coisas que ainda funcionam aqui dentro. Deviam ser umas onze da noite, eu estava no hotel, jogado na cama com aquele início de febre gripal. Sabia que devia ter ficado em casa. Mas palavra é palavra e eu cumpro até bêbado e falido. A voz de M estava mais grave que das outras vezes, chegava até a ter um certo charme. A conversa no telefone foi breve e de poucas palavras. Aproveitei o tempo depois que ela desligou pra encher o estômago de cloridrato de fenilefrina. Pareceu dar certo. Ao menos o mal-estar passou. Meia hora depois ela chegava de taxi disposta a fazer a sua parte do acordo e me apresentar a noite da capital.

 

Caminhamos umas três quadras em zigue-zague esbarrando um no outro pelas ruas da cidade até chegarmos a um boteco onde R nos esperava com um caneco de chopp transbordando na mão. Ele jurou que a festa no clube do outro lado da rua estava imperdível e que ele só tinha vindo contrabandear umas doses de steinhaeger para o velho dele já que o bar do clube estava carente de destilados. Não acreditei que uma festa onde teu pai está possa ser tão boa assim, a não ser que você esteja caindo de bêbado, o que era o caso de R, que parecia que andava tropeçando naturalmente. Aguardamos um tal de J chegar e feitas as apresentações entramos no micro-boteco descoladinho mais verkitschen da redondeza onde um quadro do Mussum dividia espaço com um oratório do Sagrado Coração de Jesus, quadrinhos italianos, patos de borracha, bonecos plásticos e letras psicodélicas em vermelho e branco na parede.

 

Tomamos uma cerveja e foi o tempo de perceber que não teríamos muito futuro no lugar. Alguém chamou ao telefone dizendo que já estava lá fora. Um carro preto grande era a senha. Fechei os olhos e pensei “tudo bem, eu só quero uma boa história pra contar”. Na frente do carro uma barata kafkiana subia pelas paredes de um casarão. Eu até apontei, mas ninguém deu bola. Talvez tenha sido uma ilusão de ótica. Vai saber. Eu ainda estava meio impressionado com o filme do Brian Jones, que um cara da roda achou péssimo.

 

Limpos – No carro A e T ajustavam o som, sentamos atrás e tocamos pela cidade a fora em alta velocidade. “Alguém tem tóxico no carro?” um deles perguntou virando a cabeça pra trás, “a cidade tá cheia de federais”. Todo mundo limpo, ao menos em tese. De mais a mais os federais são meus amigos. Não lembro o que conversamos até chegarmos na casa de F, que comemorava o final de seu casamento. Eu devia estar pensando na gripe, no nariz entupido, na dor de cabeça. F veio nos receber no portão de sua casa em um dessses bairros semi-rurais afastados do agito da metrópole. Não parecia muito abalado e a movimentação de sobe e desce de mulheres da escada em direção ao quarto denunciava que havia muito pouca gente comovida com a separação. Um laptop tocava uma trilha sonora suspeita e eclética. No fogão havia uma Madalena de calabresa que feriu os meus brios vegetarianos. Cerveja, tequila e outras coisas líquidas sobre o balcão, entre elas um copo com uma mosca morta. Fui na cerveja, depois na tequila.

 

Apareceu mais gente na casa vindo não sei de onde. Alguém me apresentou o M e a A, que usava uma meia arrastão. Todos queriam curtir um som. Surgiu do nada um violão, penso que deva ter caído dos céus, por ser um tonante. Se viesse do inferno seria algo mais roquenról. T tocou alguma coisa e o resto das pessoas acompanharam. Eu bebia no balcão da garagem e conversava com J sobre budismo, Neal Cassidy e Bob Dylan. Uma cadela entrou na casa pela porta dos fundos e estacionou no colo de V que também tinha acabado de chegar e estava sentada no chão ao lado do balcão. Enquanto me pedia ajuda pra tirar a cachorra dali ela entrou na conversa. Depois de dois minutos de assertivas bêbadas chegamos ao nosso veredito: Buda foi um beatnik, on the road total. Fugiu de casa aos vinte e nove. “É minha idade. Ainda me restam cinco meses”, pensei. Olhei mais uma vez para V. “Como ela é linda”. Parecia alguém conhecido. Só parecia.

 

 

Sujos – Na mesa do fundo alguém fez três carreiras. M pediu se eu não queria. Rejeitei. Eu queria outra coisa, mas deixa pra lá. Fiquei bebendo. Ela foi. Os rapazes tomavam listerine, uma mistura recém-criada de vodca com licor de menta que mata qualquer bactéria presente na boca de quem se aventurar. Tocavam músicas de bandas locais. Uma delas me pareceu familiar. T reclamou que M roubou uma mulher dele na última festa enquanto o entra-e-sai no banheiro era constante. Só faltava uma fila, semáforos, trânsito disciplinado.

 

M voltou e começou uma sessão “esta é minha vida” particular, abrindo o jogo e dizendo tudo o que pensava sobre o mundo, a vida, os valores. “O negócio era forte”, eu pensei. Mas não falei. Deixei ela falar. No fundo estava gostando de entrar assim na vida dela. O efeito foi passando e ela sentiu o baque da bebida quando reclamou “nossa, já estou tonta”. Eu também estava. Todos estavam e o dia já estava quase amanhecendo. O dia também nasceu tonto. Ela implicou com minha orelha, perguntou se eu já tinha usado brinco. Disse que eu era um péssimo junkie porque morria de medo de agulha. Devia ser uma marca, uma ferida, sei lá, nunca tinha reparado.

 

Resolvi sentar no sofá e esperar um pouco, mas nenhum copo parava vazio na minha mão antes que outras mãos ágeis retornassem a bebida. Experimentei o listerine e reclamei com T que riu de tudo e começou a falar da composição química da bebida. Lembrei que ainda tinha que fazer duzentos quilômetros até em casa e já fui imaginando fazê-los de ré e em duas rodas. Tequila dos infernos. Mas vamos lá, parar de beber naquela hora seria pior. V foi até o quarto dormir um pouco e M sentou no meu colo enquanto desviava de um beijo. Um dos telefones tocou e alguém fez o pedido “vê se ela tem pó”. Mas ela não tinha. Ela nem viria, pra falar a verdade. O pessoal acabou se contentando com um beck que passou de mão em mão. Logo depois eu comecei a sentir aquela angústia aguda que me acompanha há anos, mas nada que um captopril embaixo da língua não desse jeito. Fui pro jardim, respirei um pouco. Logo voltei ao normal. Não foi dessa vez que a velha morte me levou. No fim acho que ninguém reparou ou deu por minha falta. Morrer sozinho no jardim até que seria poético.

 

A procissão – Já era dia e o sol corria alto no céu quando descemos até a feirinha do bairro para comer um pastel e atacar com músicas sertanejas/caipiras/bregas e afins em uma roda de violão improvisada na barraquinha. Um dos caras de uma das barracas riu até demais com o bando de bêbados que acordou cedo no domingo pra ir à feira. O japonês do pastel continuou impávido, não movia um músculo. Na volta fizemos uma mini-procissão cantando músicas de igreja, afinal: era domingo. O senhor derramou seu amor sobre as pobres almas entorpecidas. Quem sabe um dia esse vídeo apareça no youtube. Eram quase dez horas quando estávamos todos deitados em uma calçada sob um abrigo de ônibus. V mostrou uma foto na carteira de trabalho que não parecia mais com ela. Mas naquela altura ninguém parecia com ninguém. Mais um tempo e A conversava com os vizinhos, com as pessoas que passavam, com ela mesma, com todo mundo. Era a única ainda disposta a conversar. O resto foi silêncio. No ônibus M se despediu como se fosse me encontrar dali a pouco. Eu cheguei morto no hotel. De lá peguei a estrada e só parei em casa. Eram catorze horas de domingo.

 

 

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