Treze horas e trinta. Um vento frio toma as ruas de Itajaí. A maré parece subir. O peso no ar carregado de cheiro de mar se espalha pelas praças. Penetra nas paredes das lojas do centro. Repousa nos quintais do casario secular da Rua da Praia.

Da fresta da janela espero que ela dobre a esquina. Entre na fotografia do meu olhar. Falta pouco tempo para nosso encontro diário. Desembaraço um sorriso enquanto passam pela rua um caminhão e um segredo. Ajusto a cortina. Preparo o ângulo exato.

Trinta segundos, talvez. Algumas dezenas de passos. É só o que tenho. Mas sei que ela virá. Hoje não é dia santo. Ela não estará doente. Tampouco indisposta para a caminhada. Tudo fará com que ela passe por mim em sua marcha cotidiana. Algumas dezenas de passos bastam.

O sapato fechado. A saia. A blusa justa. Os livros nas mãos claras e finas. Os olhos ligeiros buscarão a fresta entre a cortina e a janela do piso superior do velho sobrado de esquina.

Ela vem de mãos dadas com a tarde fria. Ameaça um sorriso. Olha de lado. Penso afinal se há pressa nos seus passos ou se há apenas ânsia de tomar meu espaço. Ela passa. Como é linda. Carrega no rosto a inquietação do mundo. O rosto rosado de vento e vergonha. Pára. Observa a janela. Pega um cigarro. Retoma o caminho de cabeça baixa. Não sei para onde vai. Em alguns segundos é minha. Passa por mim como a vida. Como é linda. Como é linda a judia.

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