para G.B.

 

I

 

há em mim precipícios

profundezas imemoriais

nebulosas

vazios e

espaços

 

 

 

II

 

um ano que começa

outro que fica

há em mim um sem jeito

um sem governo das coisas

que habitam as páginas

frias do jornais

 

 

 

III

 

existe em mim

[bem lá dentro]

uma multidão confusa

que olha as estrelas e espera

uma resposta

no brilho de um astro qualquer

a alguns milhões de anos-luz

 

existe em mim

[bem rente à pele]

um homem que continua a marcha

sob o céu escuro de janeiro

ele tem medo

ele tem sono

ele chora nos dias mais difíceis

ele se desencontra em cada uma

das suas imperfeições

mas ele é um homem

 

ele é um mundo

um processo

e uma passagem

 

 

IV

 

meu filho diz num sorriso:

“te amo maior que a galáxia”

transgride na concordância

subverte a gramática

 

mas não confunde os sentimentos

 

 

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