para G.B.

ele não sabia se era insônia, tristeza por algo que não havia feito ou a solidão daqueles dias impronunciáveis. talvez fosse apenas uma noite quente de domingo. mas era como a poesia quando batia seca na porta do quarto e o acordava sempre na hora errada. contava os passos entre o corredor e a cozinha, enquanto pela janela buscava estranhos na rua a quem dar bom dia ou somente investigar-lhes a vida. antes fosse o mal estar de uma só noite. antes fosse a falta cotidiana da presença dela e de todo sentimento que a ela se ligava como jóias e berloques baratos. antes fosse a hipertensão. o medo que ele tinha de morrer ou fracassar ou errar a data do aniversário dela. antes fosse a angústia em escolher o presente certo. em esperar que, sorridente, ela dobrasse a esquina do mercado como quem dobra uma toalha de mesa onde ainda repousam as migalhas de um café ou de um relacionamento que já acabou. antes fosse antes. antes fosse.

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