Enzo Potel é um rapaz perigoso. É proprietário legítimo e escriturado de uma acidez e de um veneno que descolam de seus versos como uma cobra quando troca de pele. Porém, por trás da pele velha: surpresa! Vem a mesma pele venenosa de sempre. Mas isso não seria problema não fosse a habilidade do sujeito com o uso da palavra. Enzo Potel lançou seu segundo livro de poemas nesta semana na livraria e sebo Casa Aberta. Com o devido apoio da Fundação Cultural de Itajaí e do Teconvi, através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, porque é imperativo apontar quem são os culpados por tudo isso.

O livro se chama Cura. Faz sentido. Veneno. Cura. Cura? E será que há antídoto para essa cobra-cuspideira? Enquanto o autor se desdobrava pelo chão do velho casarão serpenteando a performance de lançamento do livro, rastejando pelos cantos, pronto pra dar o bote, era nisso que eu pensava.

Em seu livro de estréia – Afeganistão – havia ou parecia haver um Enzo mais moleque, brincalhão com o mundo e com as coisas que pelo mundo se perdem ou se avolumam. Esse menino foi embora, saiu pela porta, foi comprar arsênico e nunca mais voltou. Só pode!

O Enzo de agora está mais próximo de um dos poemas de Cura: Cobra Coral. Até porque a fruta não cai muito longe do pé. Exagerei nos trocadilhos neste parágrafo. Perdão. Mas Enzo está mudado. Está melhorado, amadurecido, mais certeiro na escolha das palavras. Nas escolha dos conflitos então, nem se fala. É um quase-almanaque de fel.

Cura é um livro para ser lido por aqueles que querem se proteger desse tipo de veneno. Por aqueles que querem usar esse veneno. Por aqueles que já foram envenenados. Cura me pareceu um livro de transição para algo muito maior e mais grave que vem por aí. Pode não ser, mas pareceu.

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