I

 

Se pode haver poesia e beleza no exercício da contabilidade eu não sei. Meu pai foi contador na maior parte da vida. Sempre me pareceu um homem prático e dedicado. Quando ele se foi, há sete anos, deixou para trás – além da saudade – um arquivo daqueles antigos, de metal acinzentado, repleto de documentos contábeis, a maioria com mais de trinta anos. Registros aposentados do ofício de uma vida inteira.

 

 

Desde então os documentos têm nos criado algumas situações tomadas de lembranças e graça. A cada final de ano – pouco preocupados com as regras do Feng Shui mas muito decididos a jogar coisas sem utilidade fora – nos pegamos olhando para pilhas de notas fiscais lacradas, blocos amarelados de recibos, registros e balancetes, imaginando o que é realmente importante o suficiente para não ser jogado fora na inevitável limpeza de Natal daquele ano.

 

 

Aos poucos, ano a ano, fomos esvaziando o velho arquivo, até que nos livramos do próprio, restando apenas uma valise surrada de couro preto com poucos papéis sobreviventes a habitarem seu interior. Este ano foi a vez dela. Decidimos dar fim à papelada. E eis que após nos desfazermos de tudo surgiu do fundo da maleta um papel avulso de um bloco de anotações que veio direto das mãos de minha mãe para as minhas e a partir daí me tirou o sono nos últimos quinze dias.

 

 

II

 

No bilhetinho do bloco de uma transportadora com filiais em Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, uma única anotação: “Rev. ‘VEJA’ 22-07-70 pg. 35”. No verso uma lista de 22 clientes, com 11 deles ainda não marcados e uma conta cujo produto era 183,76. Deixei de lado meu passado mais afeito à importância dos números, apesar do peso simbólico do número do mestre, e me concentrei na referência à revista.

 

 

Logo a Veja! O último baluarte do fascismo no país. Uma revista que, como jornalista profissional, aprendi a não respeitar e a desconfiar de cada vírgula. Que segredo me traria nessa mensagem póstuma de mais de trinta anos?

 

 

Corri pra internet atrás do banco de dados da revista. Nada. Só as capas antigas, e olhe lá. Perdi mais uma manhã de janeiro nas buscas até que resolvi ir ao local mais óbvio de todos: a biblioteca da universidade, onde me garantiram que eu encontraria aquela edição. Mas janeiro é um mês pouco indicado pra esse tipo de pesquisa. A biblioteca permanece fechada até o início de fevereiro, quando, depois do carnaval, reabre suas portas para o mundo.

 

 

Lá fui eu, sem a testa devidamente marcada pelas cinzas de quarta-feira. Entrei no prédio e me dirigi às estantes dos periódicos. Um a um fui contando os anos regressivamente até a pasta de acrílico cinza de 1970. Agosto, Julho, dia 22. Saquei a revista sem capa como quem desenterrava um tesouro daqueles de Stevenson e corri as folhas direto para a página 35.

 

 

III

 

A página ímpar na editoria de Economia e Negócios era tomada por quadros, apontando os melhores investimentos naquele ano. Antártica Paulista, Cacique Café Solúvel, Banespa e Companhia Vale do Rio Doce, entre outros mais. Em cada uma deles o capital atual, o lucro bruto, reservas, dividendos, bonificações e mais um infindável número de índices que para mim ainda estão revestidos de um certo hermetismo, mas para meu pai podiam dizer várias coisas, apontar vários caminhos. Tudo isso no tempo em que ainda se escrevia “Bolsa de Valôres”.

 

 

O título da matéria de seis páginas foi o mais sugestivo: “É hora da ação equilibrada”. Vou morrer imaginando se isso era enfim um recado derradeiro. Resisti ao combinar os números e jogar na mega-sena acumulada. No jogo do bicho nem pensei, já que dele entendo tanto quanto jogar Gamão.

 

 

Sei que vou guardar esse bilhete rabiscado, mesmo sem motivo. Também sou contador, mas de histórias. Vou deixar ele no fundo da gaveta, apenas pela gratidão à história que ele proporcionou. E, se sobrar algum dinheiro no final do ano, penso se invisto tudo nas ações do Banco do Brasil, já que a rentabilidade ali é garantida. Mas vá confiar na Veja!

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