Escrever é, antes de tudo, encontrar-se. O escritor tcheco Franz Kafka, vagando pelas sombrias e ermas ruelas de Praga, entre uma desilusão e outra, dizia que a literatura era sempre uma expedição rumo à verdade.

 

Recebi pelo correio o livro Aço e Nada do poeta e cronista Rubens da Cunha, que tem se revelado um dos maiores escritores da atualidade em nosso estado. Costumo sempre dizer que não escrevo resenhas de obras rejeitadas pelo meu míope e questionável gosto literário. Se o produto é duvidoso, recolho meu comentário ao silêncio do meu quarto. Quando gosto, escrevo com a maior sinceridade. Por isso sempre falo bem nas resenhas que escrevo e, por conta dessa minha eterna aprovação pública, elas não devem, de maneira alguma, deixar de ostentar seu valor verdadeiro.

 

 

Mas o livro de Rubens, de quem desfruto da amizade literária, diga-se de passagem, é tão bom que merece duas resenhas, já que conceder estrelinhas, sinais de adição ou qualquer signo gráfico que realce a sua notável grandeza me parece inoportuno e de pouca valia.

 

 

Rubens atualmente escreve poemas, crônicas e mais algumas narrativas difíceis de classificar nos padrões textuais aceitos. Ele é um sujeito calado que conheci em uma das edições do sarau Palavras Acústicas em Joinville, onde o Grupo Zaragata era homenageado. Nos reencontramos na recepção ao Fabrício Carpinejar e desde então trocamos textos e impressões através de nossos respectivos e falantes blogues, por onde foi possível conhecer um pouco mais desse rapaz e de seu ofício literário.

 

 

Aço e Nada é um conjunto de crônicas publicadas no jornal A Notícia entre fevereiro de 2004 e março de 2007 onde o autor dá a sua versão para isso que nos rodeia e que chamamos de mundo. Publicado com recursos oriundos da lei de incentivo à cultura de Joinville e com apoio da Fundação Cultural, é o terceiro livro de Rubens, que já publicou Campo avesso (2001, Ed. Letra d’água) e Casa de paragens (2005, Ed. da UFSC).

 

 

No livro, Rubens mastiga as palavras à exaustão, conceitua, define termos, brinca com os significados. Ele, assim como a filósofa irlandesa Iris Murdoch, sabe o quanto uma palavra bem colocada pode definir com clareza uma idéia singular. A linguagem como espelho para a realidade. Na crônica, autêntico gênero nacional, Rubens – o da Cunha – pisa os mesmos passos que Rubem – o Braga – porém com uma visão mais reflexiva e filosófica, e menos casual e cotidiana que se transformou na grife do escritor capixaba.

 

 

Nesse passeio com Kafka em sua Praga tristonha e Rubens em sua Joinville chuvosa, o leitor é convidado a visitar a casa dos significados e a morada dos termos perdidos em vocábulos passados. É um convite ao encontro da palavra, um convite à verdade, um convite para encontrar a si mesmo.

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