Estou ficando velho. Percebi isso quando comecei a conviver com a terrível realidade que é tomar medicamento de uso contínuo. Pressão alta. “Meu Deus, aos vinte e nove anos?” Sim, aos vinte e nove anos. “Mas você tem que procurar um médico, ver o que está acontecendo”. Não, não tenho. “Pode ser algo grave”. Não é grave. Estou ficando velho. Só isso. Prefiro não teimar com meu corpo, já que aparentemente ele não é tão confuso quanto a minha alma. Melhor resignar-me: estou ficando velho.

 

Perdi aquele espírito aventureiro. Não estou mais naquela condição de quem topa qualquer convite. Escaladas, rapel, rafting? Devagar, devagar. Aqui vai um senhor de idade. Noites seguidas sem dormir, perambulando de uma cidade a outra e conhecendo centenas de pessoas? Difícil. Quando se fica velho se te medo até de caminhar demais. Medo de correr demais. Medo daquilo que é muito. Os excessos são um produto perfeito para um mercado jovem. Para os idosos restam valores mais, digamos, velhos. Equilíbrio, ponderação, tranqüilidade.

 

Algumas medidas de precaução diante de algum possível distúrbio evidenciam que estou assumindo a velhice. Passei a usar cardigan e levo sempre um casaco a tiracolo porque, afinal, não há pior inimigo que um vento encanado nas costas. Ao menos é o que dizem os mais velhos. Antes do banho agora fecho a janela e aqueço o ambiente com o chuveiro. Substituí o velho boné de beisebol por um daqueles bonés do início do século passado que meu pai usava na serra gaúcha. Aposentei o tênis. Agora só sapato. Ainda assim um sapato que não aperte. Ao contrário a pressão vai às alturas. Em casa o chinelinho é o melhor amigo e vai do sofá ao quarto quase sozinho.

 

A comida virou uma excursão às cegas rumo ao labirinto de minotauro. Sei que serei devorado mas ainda assim me cuido. Pouco açúcar, pouco sal, pouca gordura. Vou viver do que? “Folhas verdes. Abuse do verde escuro”, diz o médico. Acho que vou ter uma overdose de couve refogada. Sem falar que Popeye é fichinha perto do que tenho comido de espinafre. Nada quente ou gelado demais. Em breve estarei craque no jogo de gamão. Escutarei cada vez menos, mas isso tem lá as suas vantagens. E se seguirmos as principais tendências, em breve poucos darão bola para aquilo que penso, aquilo que falo ou aquilo que pergunto. Vou me acabar nas mesas de bingo. Nunca mais sairei de casa sem um guarda-chuva. É um caminho sem volta. Estou ficando velho.

 

Embora eu esteja cada vez mais sábio, cada vez mais tolerante com as coisas bobas da vida e cada vez mais esquecido das desgraças, tenho que admitir que o tempo, que antes era infinito e longo, agora se vai entre os minutos, entre as horas, levando para sempre com ele a vida e a juventude que um dia foram só minhas. E talvez a vida se resuma a isso.

 

Anúncios