Tenho na parede da sala de estar de minha pequena casa um par de aquarelas das ruas de Barcelona. São duas reproduções de obras de Gaudi que sempre confundo, esqueço o nome ou troco. Mas estão lá, fazendo companhia na frente da poltrona onde cotidianamente e repleto de uma preguiça felina eu saboreio os livros da estante. Recebem todos os dias o mesmo reconfortante sol da manhã que recebo pela janela da ruazinha lateral.

 

Foram um quase-presente de minha irmã. Ela os trouxe da Catalunha. Deixou alguns anos em sua casa em Joinville e depois, desgostosa com algo nos quadros, estava decidida a joga-los fora de uma vez. Intercedi pelos quadros. “São espanhóis, você trouxe de tão longe”. Mas ela estava cansada dos quadros como quem está cansado de alguém em uma relação. E acabei ficando com eles de presente. Ou quase-presente, como disse.

 

Lembro que ainda pensei: “Combinarão com a parede lilás da sala da estante”. E combinaram. Coloquei um mais alto que o outro porque sempre achei entediante medir as paredes, verificar o nível, entre outros cuidados. Isso era coisa para meu pai e suas dezenas de ferramentas, uma para cada coisa e algumas até para coisas que não existiam. Sou impaciente demais para essas simetrias da vida moderna. E talvez eu devesse ter vivido há cem anos, onde o mundo era mais disforme e confuso. Seria mais feliz.

 

De Barcelona as aquarelas guardam as cores, o movimento das ruas, carros, gente e árvores. Ao menos é o que eu imagino de Barcelona, uma vez que nunca estive lá. Para mim, Barcelona e Valparaíso são duas cidades vizinhas no meu imaginar. O mar, o frio do outono, o cheiro do pescado e os gritos do mercado público. São cidades que se completam na minha imaginação. Cidades que talvez eu nunca chegue a conhecer, mas nem por isso deixam de ser belas.

 

Pelos quadros conheço a minha Barcelona, que é uma mistura da Barcelona contada por minha irmã, da Barcelona que li nos livros, da Barcelona dos jogos olímpicos da minha adolescência e da Barcelona dos filmes da guerra civil espanhola. Pelas ruas desta cidade caminho cantarolando canções em um espanhol duvidoso. Livre, sem horários nem obrigações, brinco com as crianças nas calçadas, elogio as moças bonitas que passam, sorrio para a velha senhorinha que tropeça na calçada enquanto volta apressada da padaria. Tudo é festa nesta Barcelona feliz que existe dentro de mim.

 

E de lá escuto Zeca Baleiro que canta no aparelho de cd da sala, mais triste que a coisa mais triste do mundo: “Me dê a mão, vamos sair e ver o sol.” E Zeca, com uma breve escala em São Luís, me traz de volta para este sobrado esquecido em uma esquina de Itajaí.

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