Luísa, estamos sós nessa igreja vazia. Os alemães já ultrapassaram as barricadas. As ruas estão desertas. Não há gente ou bicho. O segundo pelotão caiu há pouco nas trincheiras dos portões da cidadela. Todos fugiram e restamos nós, sob os olhares incrédulos das imagens santas em procissão. Há poeira nos bancos da igreja. Lá fora há um nada que é a soma de todos os nossos erros. Luísa, a guerra reduz tudo, simplifica tudo, resume tudo. O amor também, Luísa. Mas a dor do amor é diferente. Não se carrega na ponta da baioneta. Há furos de bala nos vitrais. Olha a sombra que se achega na janela, Luísa. Não é nuvem. É um zepelin que corta o céu. Lá fora os alemães avançam. Eles marcham. Não há mais saída. Luísa, estamos só eu, você e a igreja vazia. Até que a morte nos separe. E depois, até que a morte nos una outra vez. Eu ouço os tanques chegando. Que armas tem um poeta nessas horas? Se eu ainda falasse alemão. Escute as bombas. Cada vez mais próximas. É a guerra batendo na porta. Não restará beleza alguma depois que os canhões desfilarem pelas nossas ruas. Escute as bombas. Estamos sós na igreja vazia. Luísa, casa comigo.

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