Eu não ia escrever sobre xampu. Primeiro porque sempre achei que a palavra sofreu um aportuguesamento pobre e feioso demais para figurar na literatura nacional. Em segundo lugar porque o Mário Prata já escreveu uma crônica sobre isso, falando do jaborandi e de outras coisas tipicas do produto. Mas não agüentei. A indústria cosmética provoca e, na condição de provocado, serei obrigado a tocar no assunto.

Embora eu não seja tão velho assim, sou do tempo em que havia apenas três tipos de xampú: o de adulto, o de criança – que não ardia os olhos e era amarelo – e o Denorex. Aliás, o Denorex era bárbaro, porque além de lavar o cabelo, acabava com a caspa, desentupia o nariz e deixava a cabeça geladinha naqueles dias de calor infernal. Que fim levou o Denorex?

Mas, enfim, hoje existe xampu pra todos os gostos, tipo de cabelo, estação do ano e não vai demorar muito pra ter um especial até para o signo zodiacal. “Moço, eu quero um de peixes com ascendente em leão”, vai dizer a pisciana problemática. Xampu pra ela! O importante é faturar. E a área cosmética é um dos segmentos da economia que está em franca expansão. Ficar bonito, dependendo da feiúra, envolve muito dinheiro. É a roda do capitalismo estético girando.

Porém o que mais tem me chamado atenção é a criatividade e a ousadia dos rótulos dos xampus. Eu fico até imaginando o pessoal da criação discutindo os nomes e propriedades de cada um. Efeito Frizz: é o famoso cachopão, ou conhecido por “Palhaço Bozo”. Mas é claro, já há xampu que reduz em até 30% o dito efeito. E vá lá saber como foi que chegaram nesse número percentual. Outro rótulo traz mais uma: “para domar os cabelos mais rebeldes”. Meu Deus, escreveram isso? Está aí um exemplo de metáfora capilar bem sucedida. E por aí vai: camomila deixa mais claro, abacate hidrata os cabelos ressecados, babosa deixa mais sedosos. Há xampu para “pontas perfeitas”, anti-queda, com proteção solar especial e até um com as poderosas hidroproteínas de trigo, como esquecê-las?

Mas entre todas as bizarrices cosmético-capilares esses dias vi uma que me intrigou sobremaneira. Estava lá: SEM SAL. Assim, sem mais delongas, como se fosse uma margarina. É claro, depois daquele momento em que realmente cogitei ser algum tipo de xampu para quem sofria de pressão arterial elevada, fui ver o rótulo. Que nada. É que os sais podem danificar os cabelos e tal, coisas que descobriram em algum laboratório de Paris ou algo assim e que agora está a seu alcance! Até cheguei a pensar em fazer um xampu com aroma de folhas frescas de arruda e COM SAL, especial para banhos de descarrego. Vai que fico rico.

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