para o grande mestre Mario Benedetti

 

 

Foi como um choque quando os lábios dela tocaram os seus. Um choque de carros, de caminhões ou de outra coisa cuja dimensão fosse suficientemente grande para causar estragos daquelas proporções. Não um choque desses elétricos, já que ele mesmo se sentia completamente vazio de forças naquele momento. Foi um beijo não esperado. Um golpe. Um solavanco. A brusca pressão das bocas. A língua intrusa em território então desconhecido¹. O encontro das salivas como as águas de dois riachos que se avizinham, transbordando às margens e revolvendo as profundidades. Um hálito respirado dentro de outro hálito. Um fôlego que quase se perdia para, instantes depois, logo ser retomado. Um não-saber o que se fazer com as mãos, com os olhos, com o corpo todo. E o gosto doce que lembrava mel, anis e tâmara madura². Percebeu então que havia uma função para os lábios: serviam de sutis almofadas que abrandavam a violência do beijo e poupavam os dentes de um sinistro³ qualquer.

 

 

¹ Na ocasião ele pensou “A língua devia ter em sua ponta pequenos olhos investigadores”. No dia seguinte releu o Gênesis tentando descobrir em que momento da criação Deus deixou que a distração o carregasse para outra coisa e esquecesse de um detalhe tão indispensável. Ao final, considerou a sua inquietação despropositada e ainda mais prosaica: Deus nunca haveria de beijar uma mulher.

 

²Depois de um tempo ele descobriria que era um adoçante dietético que ela usava no leite por ser diabética desde os doze anos, quando contraiu a doença impressionada com o trapezista que, entre saltos e piruetas nas alturas, flertava com a morte naquele circo mambembe que passava todos os anos, no mês de junho, por Três Rios.

 

³ A palavra acidente seria mais exata e só não foi usada porque ocasionaria um eco na oração.

 

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