O bigode vasto e desalinhado de Friedrich Nietzsche uma vez sentenciou: “eu só acreditaria em um Deus que soubesse dançar”. O filósofo alemão tentava abstrair um deus menos tirano e vingador, livre de suas auto-opressões e limitações morais. Talvez ele até pensasse no deus Shiva, sempre representado em uma alegre dança que, de acordo com a tradição mística hindú, seria o verdadeiro sustentáculo do cosmos. Ou talvez Nietzsche estava apenas conferindo o atestado: para dançar é preciso ter algo de sublime e divino.

 

Eu não sei dançar. Tropeço nas pernas, erro o compasso e sou dono de uma falta de cordenação motora que impressiona até os mais incrédulos no quesito ritmo e harmonia. Não sei se isso é herança de família, mas sempre fui de cantar, de tocar violão, de ficar de conversa. Dançar, nunca. Tudo bem, lá de vez em quando uma dança-da-cordinha ou aquela sambadinha muito parecida com o que os americanos fazem no carnaval, mas nada além disso.

 

Sei que parece uma besteira, mas dançar ou não dançar possui uma forte influência no desenvolvimento psico-afetivo de um sujeito, nas relações sociais que ele estabelece e até mesmo na auto-estima, podendo causar traumas para a vida toda. Só eu sei em quantas festinhas fiquei no vácuo enquanto a menina mais linda da escola rodopiava pelo salão com um dançarininho de uma figa!

 

Não saber dançar exige do não-dançarino, por exemplo, habilidades especiais com copos. Até porque é o que muitas vezes resta: ficar com um copo de bebida perambulando pelo salão ou até mesmo escorando aquela parede para que ela não caia sobre os carlinhos-de-jesus que se esbarram pela pista de dança. Não dançar exige um bom papo, uma boa desculpa. Não dançar é quase uma arte.  Já dançar aproxima as pessoas, principalmente seus corações. E olha que não falo apenas fisicamente. Dançar tem lá seu charme, sua destreza. Faz parte do jogo de sedução do bicho homem ao se exibir diante da fêmea. E como é bonito um homem que sabe dançar bem, conduzindo a mulher pelo salão como quem flutua pela imensidão do espaço.

 

Certa vez fiquei pensando em algum motivo que servisse de absolvição ou ao menos de justificativa para a minha falta de noção para a dança. Achei vários. Nenhum bom o suficiente. Desde então venho jogando a culpa nos maus exemplos que tive durante a minha infância. Todos os heróis de minha época pueril não sabiam dançar. Indiana Jones, Chuck Norris, Pica-pau…no fundo eu sei que tudo seria diferente se eu crescesse com o mestre Yoda dançando a dança do maxixe, no meio de duas mulheres, fazendo sanduíche, mas isso não aconteceu.

 

Dançar bem, talvez em outra vida. Então preparem os salões, liberem as pistas, que o meu bloco vai passar!

 

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