Eu devia estar por casa naquela noite de quarta-feira. Era dezembro e possivelmente o calor do verão cada vez mais eminente já se achegava por entre as frestas da porta do meu quarto. Se a lua estava cheia ou minguante eu não lembro. Nem sei se chovia.

Eu tinha doze anos e naquele dia eu já devia estar de férias e, feliz por isso, devia ter passado o dia inteiro a vagabundear pelos muros da vizinhança. Naquele horário eu já devia ter feito todas as coisas que minha infância de criança ausente e calada me permitiam e, cansado de um dia contemplativo e demorado, preparava-me para o descanso.

Às vinte e três horas e trinta minutos eu também devia estar sozinho. Naquele horário eu já devia ter chegado do futebol no campinho do bairro, devia ter tomado meu copo de leite gelado com dois pães esfarelados na margarina, devia ter relutado em tomar o banho, apesar do calor e do suor que devia escorrer pela nuca molhando a gola da camiseta colorida, devia ter pensado em ver televisão, em tocar o violão que eu recém havia ganhado, devia ter pensado na vida como pensa um menino de doze anos, pensado em olhar a noite cair por cima dos morros da cidade, em distrair-me nas janelas dos prédios vizinhos, pensado em ler minhas revistas de histórias em quadrinhos, meus álbuns de infindáveis e inúteis coleções que foram aos poucos consumidas pelo tempo ou pelas mãos ágeis e utilitaristas de minha mãe.

No outro dia as notícias devem ter saído em demasia. No jornal, no noticiário, nos comentários da rua. Eu devo ter prestado atenção ao fato. Ou talvez eu nem tenha dado bola. No outro dia só restaram as tuas palavras impressas na folha fria de um jornal na capital do país.

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