Há uns três anos escrevi um texto chamado Para esquecer um grande amor, publicado no blog um tempo mais tarde e logo convertido ao texto campeão de leitura e acessos por aqui. Sempre tive um problema pessoal com esse texto. Mas escritos são iguais aos filhos, depois que nascem é difícil renegar. E assim ele foi ficando e colecionando comentários entre aqueles que já sofreram ou ainda sofrem por um amor. Uns sofrem de saudades, outros de solidão. Outros sofrem sem nem saber o motivo certo. Estão perdidos e sós.

O fato é que eu sinto uma obrigação de explicar algumas coisas sobre o texto, sobre os comentários decorrentes dele e sobre as indagações que um ou outro me faz ao se identificar com o conteúdo das suas linhas. Longe de ser um consultor sentimental na era dos cyberloves, a intenção talvez seja apenas não deixar algumas perguntas na solidão da falta de resposta. Falar desse assunto é sempre complicado. É andar sobre a estreita linha da pieguice. Ainda mais quando se fala de um amor que já se foi. A impressão que a gente tem é de estar escrevendo um roteiro pra música sertaneja ou aqueles textos pedantes que acabam virando corrente de e-mail e um dia aparecerão por aí perversamente atribuídos a Arnaldo Jabor, Luis Fernando Veríssimo ou até Chico Xavier.

O grande problema talvez se coloque no fato de que as pessoas não preparam o coração para o fim de um relacionamento. É compreensível. Pra início de conversa, ninguém se apaixona junto, ao mesmo tempo. Geralmente você começa a gostar de alguém e quando a pessoa também passa a gostar de você a relação tem seu início sacramentado. É pouco provável que as pessoas se apaixonem com a mesma intensidade no mesmo instante, atendendo ao horário oficial de Brasília. Assim também é o final de uma relação. O amor acaba primeiro pra uma das partes. Para a outra acaba depois. Em alguns casos, nunca acaba. É também muito pouco provável que o amor acabe junto nos dois corações. A raposa do Pequeno Príncipe (esse eterno injustiçado pelas misses do mundo) já dava o recado sobre isso quando dizia ao menino “…se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… ” Este é o infortúnio de um amor quando acabado. Ele termina a qualquer momento. E o coração da gente quase nunca está preparado.

Mas aí vem o dilema: há de se estar eternamente preparado para o fim do amor e viver uma relação pela metade, constantemente ameaçada pelo final, que está sempre na eminência de se aproximar, como um ladrão que adentra ao jardim no silêncio da noite? Ou há de se jogar em uma relação de cabeça, como se ela guardasse dentro dela o elixir da eternidade, arriscando tudo e aumentando geometricamente as possibilidades de quebrar a cara?

Preparar o coração é coisa séria. É quase como preparar uma aposentadoria tranqüila. Nesses anos de publicação do texto tenho reparado algumas particularidades. A procura por termos como “esquecer um amor”, “esquecer alguém”, “como esquecer um grande amor” nos mecanismos de busca na internet são muito maiores nas últimas horas dos finais de semana. A noite de domingo é cruel até neste ponto. Ou as pessoas parecem querer começar a semana de uma forma diferente, como se terminar uma relação fosse como começar uma dieta. Ou uma novena ou promessa. Santo Antônio de Pádua é o santo casamenteiro, mas haverá um santo para os solitários? Não sei. Acho que a solidão não obedece a preceitos canônicos.

Mais complicado que falar de um amor que se foi é fazer isso enquanto se vive um momento feliz, com um amor que está sempre presente nas manhãs, nas tardes, nas noites e nas madrugadas. Jorge Amado falava que para escrever um texto carregado de emoção era preciso estar emocionado na hora da escrita. Talvez seja mais fácil falar às “pessoas com o coração destroçado do mundo” quando no momento se está compartilhando essa dor. A literatura é sempre uma forma de entendermos e organizarmos o cosmos e nossas idéias sobre ele. É complicado escrever sobre algo que não se entende, ou não se vive. É triste ver tanta gente de cara amarrada. Ah, se me fosse dado o dom da profecia, das respostas finais e eternas. Mas o que me resta é ouvir em uma mesa de bar alguém cantar baixinho o que diz Chico em uma daquelas canções: “me responde, por favor, pra onde vai o meu amor quando o amor acaba?”

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