A intenção foi boa. Primeiro Deus criou o vento, pensando nas pessoas que colocavam a cabeça pra fora daquele trem que vai de Paris a Veneza. Pensou nos cataventos, nos trigais se curvando, nos motociclistas que viajam para a Patagônia e nas crianças e suas pipas no mês de setembro.

Depois Deus criou o fogo e com ele pensou na lareira para os dias de inverno. Pensou também naquela casca de arroz crocante do fundo da panela de risoto, na fogueira de São João e no luau.

Então Deus criou a água e criou a mangueira pra se tomar água no bico depois do futebol no campinho do bairro. Com a água veio o banho de espuma na banheira, a guerra de bexiguinhas e aquela montanha-russa que termina fazendo splash. E Deus criou a cachoeira e o mar, e com ele as ondas perfeitas. Sim, e criou a chuva e, logo em seguida, o banho de chuva. Ainda achou que era pouco e então criou o famoso beijo-de-língua-na-chuva.

Maremotos, tsunamis, incêndios, alagamentos e furacões foram contratempos. Deus sempre foi um cara bem intencionado.

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