Acabei de ler Amor Líquido, do pensador polonês Zygmunt Bauman, que conheci na faculdade falando do mundo moderno, mas só fui – de fato – ler com mais atenção depois da apresentação de André Pinheiro. Bauman trata da fragilidade dos laços humanos nesse mundão louco de hoje em dia. Fala de um tempo que ele chama de modernidade líquida, onde nada mais é sólido – e que tem por símbolo o “homem sem vínculos”.

O pensamento reflete em parte a crise das instituições que estamos presenciando. Não há referência para mais nada. Nem igreja, partidos, tampouco ideais. Os valores vêm sendo diariamente relativizados. Com o amor e com as relações inter-pessoais não é diferente.

Cecília Meireles um dia perguntou: “morrem nos mares da vida todos os rios do amor?”. Bauman repete a pergunta, porém de uma forma diferente.

Ele defende que em uma sociedade onde tudo muda tanto e com tanta rapidez, o homem está cada vez mais inseguro. Como o homem precisa de segurança e ordem por uma questão de saúde mental, o ritmo desvairado do mundo transforma a cabeça do homo modernus em um caleidoscópio. Para se defender o homem se fecha e – temendo sofrer – renega relações duradouras, vínculos e compromissos. “A solidão produz insegurança – mas o relacionamento não parece fazer outra coisa”, diz ele.

Para André Pinheiro, pode ser um convite ao exercício do desapego. Ele que nos alerta para a o fato de “ser errático, volátil, impreciso e caminhante”,

Mas se por um lado a obra de Bauman é um balde de água fria naqueles que ainda acreditam que possam ser felizes ao lado de alguém, por outro lado serve como uma indagação inquietante. “Somos mesmo assim?” , devemos nos perguntar. Será que depois de milênios de evolução não conseguimos criar relações estáveis, saudáveis e que nos tornem pessoas melhores com os outros? Vamos continuar tratando as pessoas de forma supérflua, descartável e utilitária?

Mais do que um enterro definitivo da relação conjugal, Bauman parece dar um grito de alerta para o homem, cada vez mais afundado em uma lógica que oscila do niilismo ao hedonismo com a rapidez que a conveniência pede.
Não quero parecer mais romântico do que já sou. Mas sempre resta uma esperança de que um dia a gente acha a pessoa certa. A esperança de que a gente pode até já estar com a pessoa certa. A esperança de que dá pra confiar em alguém que não te fará sofrer pelo simples fato de que ela gosta de você. Pelo simples fato de que ela já evoluiu e já parece ser bastante crescida pra não sair por aí fazendo merda.

Sempre que vejo o mundo com olhos vagabundos me choco com a impossibilidade aparente das coisas darem certo. É muita gente, muitas coisas, muitos elementos nestes sistemas. Parece que nunca vai ser possível essa engrenagem funcionar. Sempre aparece na minha mente a imagem daquele jogo do Nintendo Wii, onde em um campo de futebol um boneco cabeceia bolas, oscilando da direita para a esquerda. Em alguns casos surgem chuteiras das quais o personagem precisa desviar, sob a pena de ser atingido em cheio por uma delas. Com o tempo e com a velocidade crescente das bolas lançadas, você começa a cabecear freneticamente, na esperança de acertar o maior número de bolas possível, mesmo sabendo que o choque com as chuteiras será inevitável.

Assim me parece o mundo e seus amores, muitas vezes. A gente entra num ritmo tão louco que nem mais consegue distinguir bolas de chuteiras, acertos de erros, ou uma pessoa legal de alguém cruel.

A insegurança é um demônio escondido logo atrás da porta do quarto.

Anúncios