As mãos não conseguem escapar do tempo. Pelas mãos se sabe a idade de uma mulher. As dela estavam escondidas. Era cedo de manhã, na biblioteca da universidade. Em uma fila onde havia apenas ela e eu. A calça justa firmada nas botas que avisavam que o inverno estava chegando. Um blusão claro coberto pelos cabelos que levemente se deitavam sobre os ombros postos. Apoiada no balcão, curvada, com os quadris erguidos tentava olhar a tela do computador, equilibrando as pernas na ponta dos saltos. A biblioteca não é o melhor lugar pra se observar certas paisagens. Para provocar, ou não – nunca vou saber – jogou os calcanhares para fora, em um movimento logo retomado em direção oposta. Parecia chamar para um abraço infinito entre as coxas naquele dia frio. Por sobre os ombros olhou em um ângulo onde só estávamos eu e a estante de periódicos dos anos 90. Parecia saber que estava sendo observada, assim como a gente se sente em noites mal-assombradas. Ela só não ouviu passos porque eu estava ali, estático, com meia dúzia de livros nas mãos. Ou talvez tenha ouvido os passos do meu espírito se aproximando, rente ao seu dorso. Respirando o ar quente de seu corpo. Voltou o olhar para a frente. Talvez não tenha me reconhecido de outras vidas, assim como eu também não o fiz. Firmou as mãos no balcão com delicadeza. Jogou os cabelos pro lado esquerdo, tomou os livros e foi embora. Uns trinta anos, sentenciei. As mãos não mentem.

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