A Ilha de Tristão da Cunha surge como uma interferência no mar sem fim. Perdida em algum lugar do Atlântico Sul, a meio caminho do continente antártico, abriga uma única povoação com o poético nome de Edimburgo dos Sete Mares. É considerado o assentamento humano mais remoto do planeta. Lá vivem 280 pessoas. Ou 279. Ou 281. Tanto faz. Lá vive gente. Há uma igreja católica e outra anglicana, uma escola e um posto dos correios, além do pequeno porto, que durante muito tempo foi a única conexão da ilha com o mundo exterior. Hoje tem televisão, internet, telefone. A vida por lá deve ter virado um inferno muito parecido com o nosso. Mas lá na pequenina Edimburgo mora gente. É preciso repetir a oração para não esquecer que além de uma formação vulcânica em forma de cone, por ali andam medos, desejos, frustrações. Por aquelas ruelas estreitas desfilam sentimentos tão infinitos quanto o mar que se esparrama por todos os lados. Haverá em Tristão da Cunha alguém para amar? Sim, entre rochedos escarpados, entre o ir e vir de uma onda no mar gelado, no vento que bate na ilha no meio da tarde. Haverá alguém interessante por quem valha à pena largar tudo, e passar os dias estranho, sorrindo pelos cantos? Haverá alguém com quem possa se acordar e dormir pensando nela? Haverá alguém cujo olhar seja mais cortante que o vento austral? As interrogações se acumulam e estragam o texto. Em Tristão da Cunha a manhã se espalha como a chuva na festa de Nossa Senhora da Assunção.

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