aos poucos te afastarás de mim. tudo começará sem muito barulho, sem que qualquer um de nós perceba de fato o que está acontecendo. um dia ficarás longe de mim, e nem sentirás falta. no começo parecerá estranho, mas aos poucos iremos nos acostumando com nossa não-presença. aos dias que se vão, acompanharão os beijos. depois os carinhos, as conversas intermináveis, os elogios e – aos poucos – representaremos cada vez menos para o outro. chegará ao ponto de sermos amigos. apenas amigos. faremos coisas que amigos fazem. sairemos na tarde de sábado. dividiremos a pizza. assistiremos a um filme b. e com o tempo até a nossa amizade será um estorvo na minha e na tua vida. no sendero por onde desfilaremos nossos novos amores não haverá mais espaço para nós dois juntos. as viagens, os amigos, o dia chuvoso, a visita dos parentes distantes. tudo o que nos mantinha unidos agora será desculpa para ficarmos cada um em seu canto. e nossa amizade, ela também, irá – aos poucos – se desmanchando entre os dedos de nossas mãos, que já não se tocam, já não se afagam. então virão os intermináveis meses que passaremos sem nos ver, sem nos falar e, um dia, sem ao menos ouvir um do outro. não perguntarei mais de ti. tampouco tu de mim. estaremos sempre em lugares diferentes. e nossos amigos nem mais estranharão que não apareceremos mais juntos nas festas, na praia, no mercado. tu te esquecerás de mim. e outra irá se deitar na tua cama. tu chamarás a ela de “meu bem”. e nós, nós seremos dois desconhecidos. eu e você. um dia nos cruzaremos em uma dessas ruas do centro da cidade. como dois estranhos, sem reconhecer nossos olhares, tentaremos lembrar, enfim, de onde nos conhecemos. e não nos lembraremos.

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