Escuto teu nome
Na fila da padaria
Sei que não falam de ti
Mas é teu nome que escuto
E ele vem
Por entre as outras palavras
Que povoam a manhã
Em uma panificadora
Desviando das mesas e bancos
Teu nome se esquiva entre os vocábulos

[Um senhor fala ao telefone:
O contrato será fechado.
Uma senhorinha pede se o pão
Ainda está quente.
O rádio dá os resultados
Do futebol de domingo.]

Mas teu nome resiste às palavras alheias
Chega intacto
Ao outro lado do salão
Onde até então eu estava
Tomado pela sonolência
Da manhã de segunda-feira

Teu nome se desdobra
Exerce uma estranha influência
Em tímpanos, bigornas, martelos e estribos

Teu nome desvia por dentro de meu corpo
E chega ao coração que palpita nervoso

Vem uma vontade enorme
De sair gritando teu nome
Na rua entre os carros
Que se amontoam no semáforo lento
Entre os pombos que se demoram
Na calçada do Correio
Entre as pessoas que caminham
Pela rua em contramão

Ah, quantas terão teu nome?
E olharão assustadas
Pensando se tratar de um assalto
Ou briga
Ou mesmo
De uma declaração de amor

Quanto terei que gritar até que
Enfim me escutes
Do alto desse edifício
E pela vidraça azulada
Possas sorrir pra mim

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