Vou pedir licença a minha querida e sempre doce Jongleuse, companheira de blog, para pegar emprestado o título e a idéia para essa crônica-ego-trip. Antes que me joguem aos leões famintos, eu me defendo, pois tenho uma boa desculpa: há um circo na cidade.

Ele chegou esses dias. Trailers, caminhões, carros com reboque, vieram todos perfilados, descendo a avenida até a esquina lá de casa. E naquele terreno baldio, abandonado e só, mais parecendo pano de fundo para poemas de T. S. Elliot, foram se agrupando como que em coreografia, demarcando o picadeiro em uma linha imaginária que talvez só possa ser vista por crianças, palhaços e poetas.

Depois de dois dias tropeçando curioso pelo local e, com a lona e os pisca-piscas já devidamente erguidos, resolvi escrever sobre o circo. Tenho problemas com circos, então, perdoem os leitores, mas algumas palavras sairão como um acerto de contas entre nós.

Eu guardo minhas razões. Não gosto de animais em espetáculos, exceto o bicho homem. Acho patético ver os poodles se equilibrando em duas patas, que sofrimento! E os macacos, que sorriem com aquele olhar sempre melancólico do King Kong no alto do Empire State? Pobre do leão, magro, medroso e abatido. Foca eu nunca vi em circo, só nos desenhos animados, mas deve ser tão triste quanto. Então não vou ao circo para ver animais adestrados.

Quanto aos malabaristas, me perdoe, Jongleuse, mas eles me enchem de agonia. Tenho aquela síndrome de sofrimento prévio. Olha, os pratos vão cair! Vai dar errado! Que vergonha que vai ser pro malabarista, meu Deus! E isso se aplica a todos os tipos de malabaristas e acrobatas, incluindo os trapezistas, o cuspidor de fogo e os motociclistas do globo da morte.

Palhaço eu acho triste. Como acho triste as fotos de bandeirinhas de São João tiradas em preto e branco, naquele varalzinho contra o céu de chumbo. Ninguém explica. São minhas idiossincrasias. Cada um com as suas.

Resta-me apenas o mágico. Do mágico eu gosto. Mas daí pra ir ao circo apenas pelo mágico já é demais. Mágico em circo é como coração de galinha. É muito pouco para o conjunto. Aliás, galinha devia ter uns 10 coraçõezinhos, pra valer a pena. Mas deixa isso pra lá. Voltemos ao circo.

Pra mim o circo sempre foi uma fronteira. Uma saída para o mundo. Aquela gente nova, vinda de lugares inimagináveis. O circo foi fuga pra um monte de gente. O circo passava e, vupt, lá se ia alguém pra vida mambembe, fugido com o circo, pra nunca mais. Não havia outro contato com o mundo exterior naquele tempo.

Mas, agora que já me expliquei, chego onde queria chegar, lugar em que Jongleuse já chegou há tempos e onde deve estar me esperando sorridente: o circo é sim uma metáfora da vida. Com toda a tristeza, a melancolia, o medo, os risos e as surpresas.

Todos carregamos um circo no peito. E pior: não dá pra ficar só com a parte do mágico. O bilhete de entrada te faz assistir a todo o espetáculo da existência. Você é obrigado a domar alguns leões, equilibrar-se sobre a corda-bamba, conviver com meia dúzia de palhaços e aturar situações que, eventualmente, te fazem cuspir fogo. Mas ainda assim há mágica, há ilusão e há aquela música de fundo que até que é meio alegre, no final.

E o mais importante de tudo: há a bailarina com uma pintinha no lado da bochecha e uma voz doce. Ah, só a minha bailarina já bastaria pra me fazer aguentar rindo sem parar todo o resto do circo da vida! Eu abro mão até do coelho na cartola pela minha bailarina…

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