Subi as escadarias do metrô de Buenos Aires com aquela sensação de estar geograficamente perdido, sem noção de norte ou equador. Diante do olhar do Mercado de Abasto, hoje shopping center, uma construção sombria-Gotham City. Era cedo na manhã e as nuvens, a cidade, o metrô, tudo girava na minha cabeça de viajante.

Metros adiante uma rua. Duas ruas. Carlos Gardel amanhecia o dia entre as fachadas dos edifícios. A letra de um tango na parede. Um Gardel em preto e branco na porta de um estabelecimento. El morocho del Abasto. Lá na frente o cantor se desdobrava multicores em um devaneio pop-art. As cores me pareceram tão distantes do tango. Exceto o vermelho. Mas Gardel estava por toda a parte. Na rua, nas pinturas, na casa onde viveu.

Era meu último dia na cidade e Priscilla cantarolava algo parecido com Mi Buenos Aires Querido. Eu ri. É sempre estranho pisar o lugar em que alguém pisou. E isso acontece a todo instante. Pisei a letra que alguém compôs. A letra que alguém cantou. A letra que alguém ouviu. A letra que resistiu ao tempo e às centenas de milhares de pegadas que já andaram pela Pasaje Zelaya.

Gardel foi o mais argentino dos não-argentinos. É preciso respirar os bons ares de Abasto para sentir isso. Eles deram voltas em meus pulmões e filetaram meu coração como as paredes caladas deste bairro e de sua classe média antiga e ausente.

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