Não costumo escrever sobre futebol por razões óbvias: sou botafoguense. Entretanto, embalado talvez pela boa fase que o glorioso vêm experimentando me senti um tanto comovido a ponto de falar sobre o tema. Maio já está no final, como diria a Paula Toller, e logo vem aí a Copa do Mundo. Os álbuns de figurinha estão pululando pelos cantos da cidade e dia desses me peguei em frente à TV assistindo à convocação da nossa estimada seleção canarinho.

Como de costume, depois de ouvir a opinião de um dos técnicos brasileiros, o Dunga, você começa a ouvir a opinião dos outros cento e noventa e poucos milhões de técnicos espalhados entre o Chuí e o Cabo Orange. É reclamação de cá, choradeira de lá, ponderação de acolá. Toda escalação de seleção é assim, nunca muda.

Mas então, ouvindo um, escutando o outro, cheguei à conclusão de que por trás de tudo isso – além dos empresários e dos patrocinadores – há uma gigantesca fenda ideológica. Explico: é tudo uma questão de valores. Dunga escolheu seu lado, seus princípios, e vai convocar um time que dance de acordo com a sua música. Ao lado derrotado só resta assistir.

Hoje podemos dividir o futebol em duas grandes escolas. É algo simples de entender, caro leitor. Não precisa muita técnica, saber quando usar o 4-4-2 ou o 4-3-3, ou algo assim. Hoje, ou você joga um futebol de resultado ou o futebol arte, resumindo a história. Entendendo por futebol de resultado um jogo mais técnico, com mais raça e força, com o foco da tática no gol e em nada mais. Já o futebol arte é jogar bonito, mesmo que isso signifique jogadas memoráveis e uma derrota no placar final.

Os partidários do futebol de resultado dizem que de nada vale jogar bonito e nunca ganhar. Que assim, logo você estará jogando bonito na segunda divisão, depois na terceira, até nem jogar mais. Pra eles não importa se o gol é de barriga, de ombro ou de canela, o que importa é que a bola passe da linha do gol.

Já a turma do futebol arte diz que se fosse pra assistir gol ou ponto eles assistiam basquete, onde cada time faz 80 pontos com facilidade, e que a graça do futebol é justamente a beleza dos dribles, passes e gols.

É claro, nenhum futebol é 100 por cento arte ou de resultado. Há uma mistura nesses quesitos. Mas o fato é que nós temos uma seleção que joga um futebol de resultado, como aquela de 1994, que trouxe o tetracampeonato com um jogo mais feio que filhote de coruja e não uma seleção que baila em campo, como a de 1982, que voltou pra casa sem o caneco.

Por mim, eu preferia que jogassem bem, com alegria, com diversão. Prefiro a leveza. Pouco me importa o resultado. É lógico que eu queria o Ganso na seleção. Vale mais em mim o caminho do que o destino da caminhada. Sou o pagante que quer ver um espetáculo e não uma linha de montagem de gol. Fábrica não tem graça alguma.

Mas é claro, o técnico da vez não sou eu. E os valores do Dunga são outros.

Então é isso aí, vamos comprar aquelas cornetas africanas Made in China, pintar a rua de verde e amarelo e cruzar os dedos pela seleção.

O Brasil corre o sério risco de ser campeão.

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