Era um mil novecentos e sessenta como nenhum outro, pensava o moleque. Onze de agosto, dia do aniversário. Chegou em casa correndo miudinho, driblou a mesa da cozinha, se precipitou pelo corredor até a porta do quarto onde sobre a cama repousava o presente prometido pela tia Dinorah. Um livro, a julgar pelo formato. Rasgando com as mãozinhas o papel de presente onde se via uma aquarela de pássaros voando em um céu azul infinito, o bichinho leu em letras grandes: O ser e o nada – Jean Paul Sartre.

Era o primeiro livro que ganhava. Abriu com cuidado e na folha de rosto, ao invés de uma dedicatória, um pequeno bilhete em papel de seda amarelado: “Pegue a dedicatória com o próprio autor, amanhã à tarde. Ass.: Tia Dinorah.”

No dia seguinte, em horário marcado, a tia do moleque passou na casa da irmã para pegar o pequeno leitor e conduzi-lo até a Faculdade de Filosofia de Pernambuco, onde o francês estrábico e de sorriso tristonho deveria proferir uma palestra no I Congresso de Crítica Literária de Pernambuco.

O intelectual e sua companheira Simone haviam chegado pela manhã no Recife. Após problemas com o trem de pouso e um sobrevôo de mais de meia hora, o casal foi recepcionado por uma multidão de fãs e curiosos. Já na chegada o também comunista e escritor Jorge Amado esperava o francês que, há de se concordar, era feio de doer. Voilà! Deram uma volta turística pela cidade e almoçaram no restaurante Buraco da Otília. Sartre misturou ostras, lagosta e camarão temperado, em uma combinação um tanto estranha para seu refinado paladar europeu.

No auditório da Faculdade de Filosofia, em meio à palestra, o filósofo começou a sentir as primeiras revoluções periféricas em sua barriga. Mas tocou a palestra adiante. Sentado na segunda fileira, com os olhinhos que pareciam duas jabuticabas brilhantes, o menino agarrado ao livro, ensaiando uma frase em francês que tia Dinorah havia ensinado: “je veux votre…” alguma coisa. Após a palestra, assim que o francesinho se levantasse e tomasse o corredor, não haveria erro, a dedicatória estava garantida!

Sartre falou mais meia hora. Esticou a corda até onde deu. Mas como se diz em Pernambuco: é ruim, amarga e trava. Não tinha mais jeito. Encerrada a palestra, mal terminaram os aplausos e ele se jogou pelo corredor. O menino preparou-se para o ataque correndo para a saída para onde Sartre olhava. Mas por ironia do destino e do estrabismo extremo do francês – Sartre não andava por onde olhava – tomou a direção contrária, dando um drible no moleque que ficou em pé catatônico a falar “Je, je, je, je…”

Correndo atrás do escritor ia Jorge Amado, pelo longo corredor com arcos que levava até o banheiro. Recuperado do baque, e virado em pernas, o menino acabou alcançando esbaforido os dois escritores, segundos antes de o francês chegar ao reconfortante trono. Foi Jorge Amado que passou a Sartre o livro do moleque, com um sorrisinho meio amarelo e uma frase em francês que dizia algo como “faz qualquer rabisco aí pro bichinho, meu rei!”

Era o tempero forte da culinária pernambucana. O resultado se mostrava agora. Trancado no banheiro da faculdade, com Jorge do outro lado da porta e o menino assustado a tiracolo, só se podia ouvir o gemido do existencialista, seguido de diversos e óbvios “Merde!”.

Quando abriu a porta, irritadíssimo e mal-humorado, o francês apenas esticou a mão com o livro para Amado, seguindo em frente sem tomar conhecimento do menino. O baiano entregou o livro ao moleque e apressou o passo para acompanhar o visitante até a coletiva de imprensa. Com o livro em mãos, o menino correu pra ver a dedicatória, mas nada, nenhuma palavra. Folheou página por página e apenas percebeu que, misteriosamente, três capítulos haviam sido arrancados pelo autor. Papel nunca foi o forte dos banheiros da Faculdade de Filosofia.

Daquele encontro nunca mais se ouviu falar. Sartre ficou quase dois meses no Brasil, esperando que as autoridades francesas acalmassem os ânimos e não o prendessem assim que desembarcasse em Paris, por conta do apoio dado aos militares argelinos na luta pela independência.

Nesse período esteve na Bahia, conheceu o Rio e São Paulo. Esteve em Porto Alegre e foi de Minas a Brasília em um carro emprestado por Niemeyer. Voou até o Ceará, de lá para Belém, Manaus, até o retorno ao Recife, onde Madame Simone veio se tratar do tifo contraído na viagem. De volta à França, nunca mais retornaram ao país.

Quanto ao menino, consta que virou existencialista convicto, impôs a si mesmo um auto-exílio no interior do país, lá onde o diabo perdeu as botas, e anos mais tarde cometeu suicídio.

Anúncios