Sempre atrasado, fiquei sabendo que o Paulo Markun escreveu agora um livro sobre Cabeza de Vaca, meu ídolo da adolescência e provavelmente uma das almas mais inquietas de todas as que já passaram pelo planeta. Álvar Núñes, o nome do rapaz em questão, chegou à costa da Flórida nas primeiras décadas de 1500, isto é, há muito tempo. Chance de um encontro com Mickey Mouse: nula.

Ali, seguindo a sina de muitos conquistadores espanhóis, naufragou, sendo um dos quatro sobreviventes de sua expedição – os que não morreram no naufrágio acabaram penando na mão dos índios. Álvar, que devia ser muito bom de lábia e, reza a lenda, tinha conhecimentos de medicina, logo surfou em sua fama de curandeiro, que se espalhou rápido e garantiu a ele uma sobrevida entre os peles-vermelhas.

Uma vez entre os índios, e no melhor estilo Johnny Walker, Cabeza de Vaca mirou no horizonte começou a andar. Só foi parar oito anos depois quando reencontrou seus patrícios espanhóis no México. Foi o primeiro europeu a cruzar nu e descalço todo o sul dos Estados Unidos, atravessando o Mississipi, o Rio Grande, entre outros. Nesse período foi escravo, mago, curandeiro e chegou até mesmo a ser confundido com um deus.

Ao voltar para a Espanha reuniu seus escritos em um volume chamado Naufrágios, fazendo uma descrição etnográfica do território por ele explorado. Como reconhecimento foi nomeado governador do Rio da Prata pelo rei da Espanha e voltou para a América.

Não contente em chegar a Assunção da maneira convencional, através do rio Paraguai, veio dar em Florianópolis, onde ficou um tempo na baía norte e depois, costeando o litoral, passou aqui pela frente e foi até a foz do rio Itapocu, onde se embrenhou serra acima até chegar ao Rio Iguaçú. Descendo o rio, Paraná adentro, foi o primeiro homem branco a contemplar, boquiaberto, as Cataratas do Iguaçú.

Passou um tempo em Assunção e ficou sabendo do caminho de Peabiru, que saía de Cananéia e subia os Andes peruanos. Chegou a dar uma volta pelo Chaco atrás do caminho, conheceu o Pantanal e logo depois, por conta de disputas governamentais, voltou à Espanha, onde morreu na obscuridade.  As experiências na América do Sul renderam outro livro chamado Comentários.

Álvar Núñes Cabeza de Vaca foi talvez o maior dos heróis da minha adolescência. Colocava qualquer Indiana Jones no chinelo. Foi mais que um homem, foi um viajante. Parece que Paulo Markun também deve ter se impressionado. Devo ler seu livro em breve. Já estou com quase três anos de atraso.

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