Quem desviar o olhar das alturas diante do Palácio de Potala no Tibet e olhar um pouco em volta verá dezenas de varais com pequenas bandeirolas dançando ao ritmo do vento. Em cada uma delas os tibetanos escrevem seus problemas, crentes de que o vento os leve para longe, de acordo com a tradição milenar budista.

O vento também é um dos protagonistas de Volver (2006), o filme mais recente do endiabrado e problemático cineasta espanhol Pedro Almodóvar que só agora tive a oportunidade de assistir. Assim como na tradição budista, na película estrelada pela atriz de estonteante e estranha beleza Penélope Cruz, o vento guarda para si uma estranha relação com as pessoas e seus problemas. Almodóvar percebeu isso e mandou o recado. E quem diz que cinema não é filosofia?

Porém o que mais chama a atenção no filme do espanhol amigo do falecido Caetano é um ângulo em especial que ele utiliza para várias das tomadas. O chamado ângulo insólito. As imagens são vistas diretamente de cima delas, em um ângulo de 90° a partir dos modelos normalmente aceitos pelo cinema tradicional. É diferente. É bonito. É um outro olhar.

Distante geograficamente da Espanha, mas próxima das tendências almodovarianas, Itajaí assistiu no final do ano passado ao surgimento da Sociedade dos Pintores do Ângulo Insólito do Vale do Itajaí-açú. Um grupo de artistas plásticos liderados pelo não menos endiabrado Rettamozo, um cânone das artes-diversas e do showbizz curitibano. Surgido em uma oficina de arte e criação na Casa da Cultura a sociedade promete aprontar neste ano que chega, pintando o mundo sempre a partir das alturas. As obras começam a pipocar por aí e logo os itajaienses poderão conhecer melhor essa tendência (?) mundial já descrita por Roland Barthes, que a batizou com esse nome peculiar. Depois dizem que vivemos em um lugar atrasado. Oras.

Volver se passa na região da Mancha, na Espanha, onde venta muito. Outrora havia por lá os célebres moinhos de vento imortalizados por Cervantes. Hoje pululam na região os imensos ventiladores das usinas eólicas. No filme, o vento é responsável por duas coisas que deliciosamente dominam toda a trama: causar incêndios e deixar as pessoas loucas.

Aqui não será diferente. A loucura não deve passar muito distante da arte incendiária dos pintores do ângulo insólito. É melhor pendurar as bandeirolas!

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