A princípio foi um pedido desprovido de esperanças: “Traz um pouco de areia do deserto do Saara pra mim”, pedi a uma amiga que embarcava para o Marrocos e fazia sua lista de presentes. Podia ter pedido um postal, um azulejo desses decorativos, um ímã para a geladeira, pensei até em pedir um fez. Mas, respeitando meu rol de esquisitices de uma vida vivida à margem do samsara ocidental, optei por pedir uma parte do deserto para ter aqui em casa.

Depois veio aquele sentimento de culpa tipicamente cristão do qual anos de budismo ainda não conseguiram me liberar. Pensei primeiro nos amigos ambientalistas, que por certo vão me esculhambar, dizendo que se cada pessoa quisesse pegar uma parte do deserto pra levar pra casa seria, sem dúvida, um grande impacto ambiental para o ecossistema do norte da África. E mais, que as areias trazem consigo micro-organismos perversos e destruidores, que causarão desequilíbrio sem igual no meio ambiente aqui ao redor de casa. “Lembre-se do caramujo africano”, dirá um deles. Na sequência pensei nos inconvenientes que poderia criar à portadora de tal regalo. A passagem pela Aduana, o Departamento Nacional de Produção Mineral, os aeroportos vigiados por máquinas inquisidoras de raio-x. “Será urânio enriquecido?”, perguntaria um policial assustado, “Peguem aquela ruiva!”, gritariam os fiscais após o potinho de vidro cheio de areia passar pelo sistema de segurança.

Mas depois esqueci. Achei que ela tinha esquecido também. Errei. Após um período de greve prolongada dos correios eis que avisto um carteiro à sombra do ipê-amarelo aqui de casa. Abro o pacotinho cheio de jornal amassado – não resisto à mania e leio as manchetes: Tributo a Cazuza no Theatro Treze de Maio e novas faixas de segurança na Av. Presidente Vargas – e lá dentro, intacto, um delicado potinho de açafrão com a areia do Saara me contempla impávido.

Pra muita gente pode parecer bobagem, eu sei. Já fui repreendido por trazer parte da cordilheira dos Andes pra estante da biblioteca. Mas ter o deserto do Saara aqui comigo é de um prazer difícil de narrar. O deserto por onde desfilaram faraós, fenícios, romanos e cartagineses. O Saara das caravanas, dos sábios mouros da idade média, dos oásis, das guerras e das marchinhas de carnaval. O deserto bíblico, soprado de um lado para outro por milênios e por ventos de nomes tão líricos. O Saara onde minha amiga deve ter dormido uma noite, olhando para um céu tão profundo que, a qualquer momento, poderia parir um aviador poeta ou um principezinho.

E num instante esse deserto está na minha frente. Seus grãos, mais pardos do que eu imaginava, são soprados por minha boca, estranha tempestade. Toco meus dedos em sua superfície e recordo tantos livros e filmes, tanta infância que passei pensando no deserto sem fim. Agora ele está aqui. Veio de trem, de avião, de carro, de bicicleta. Veio da teimosia em chegar.

Solene, espalho os grãos pelo jardim. Doravante haverá parte de toda a grandeza do deserto na relva que me cerca, nos caminhos que pisarei todas as manhãs, antes de sair para, mais uma vez, mudar o mundo.

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