As montanhas se acumulam no horizonte enquanto as horas, uma a uma, se arrastam pela tarde. Lá fora o deserto passa pela janela do ônibus como uma sucessão de erros intermináveis. Penso mais uma vez nos paralelos invisíveis e em que altura do globo devemos estar. Cada vez mais ao sul – diz o montanhista italiano que pacientemente se afunda no banco ao lado. Ele vai em direção a sua montanha. Eu não consigo encontrar um porquê para essa viagem sem fim. Impulso. Inquietude. Insensatez. Ou apenas um acerto de contas com algum tipo de passado. Mas eu sigo em frente por essa estrada de cascalho e tédio. De estação em estação. Quero ver onde isso termina. Matar essa ânsia que os homens têm em conhecer o final das coisas. O desejo pelo todo, o sentimento de estar completo. Distante da estrada um grupo de guanacos corre livre, sem as minhas ambições. Talvez a vida incompleta fosse mais feliz. Talvez eu também devesse buscar essa vida compartimentalizada e bela. Desprovida dos finais, felizes ou não. Mas nessa altura dois desertos se encontram. Aquele que vai até o horizonte e um muito mais imenso e vazio, que se espalha dentro de mim, interminável. O ônibus corta uma Patagônia gigantesca e abandonada, mas que, ainda assim, não deixa de revelar sua beleza. Dentro dele, porém, vai outra coleção de desertos nem tão plásticos. Um casal israelense que acabou de se aposentar. Três jovens irmãos da Alemanha. Um punhado de franceses e alguns argentinos inquietos. Nosso pequeno exército marcha sobre a Patagônia sem fim. Em breve será noite. E, cintilante, no meio da escuridão do céu, haverá uma estrela a entender que carrego o sentimento do mundo.

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