Com a já tradicional dose de drama, ontem os noticiários mostraram um acidente com um trem metropolitano nas ruas da capital. Detalhes – que meu parco espanhol não me permitiu compreender – talvez me fizessem desistir da viagem até Tigre na manhã ensolarada e quente que faz em Buenos Aires. Saindo de Retiro vamos costeando o estuário do Rio da Prata, e aos poucos o clima amigável dos bairros residenciais afastados vai sendo substituído pelo ar aristocrático das chácaras e mansões. Dali adiante, passando por San Isidro até chegar ao delta do Tigre desfilam para o olhar maravilhado dos turistas um sem número de pequenos castelos ao longo da ferrovia. Entre um casarão e outro, já não escondo a ansiedade. Estou procurando Elvis Presley, que de acordo com uma lenda local desembarcou aqui em 1977, logo após sua morte ter sido declarada em Memphis. Uns asseguram que não passa de uma brincadeira, mas há quem aponte evidências, inclusive. Descemos em uma estação prontos para um reconhecimento de terreno. Pelas ruas de muros altos e cercas metálicas reluzentes vou cantarolando It’s now or never, refletindo sobre a ocasião que se coloca em minha frente. Elvis nessa altura deve ser um velhinho, andando de roupão pelos jardins ou tomando sol no alpendre georgiano de alguma dessas casas. O que achará do rock’n roll argentino? Seria uma pergunta muito óbvia. Encontro algumas casas mais parecidas com Graceland próximas aos arvoredos da praça, de onde, sem esforço se vê o rio. Me concentro a tentar escutar algum som parecido, um piano, talvez. Imagino que Elvis ainda tenha paciência para uma canção gospel daquelas da infância. Mas o silêncio é maior. Depois de duas horas bem gastas pelas calçadas do bairro, desisto. Conto os anos ainda possíveis a um Elvis hipoteticamente vivo e me comprometo a voltar em outra oportunidade, com mais elementos, mais tempo, para uma busca derradeira. Ainda há chances. Antes de chegar à estação – última tentativa – pergunto a um bodegueiro sentado no banco da esquina. Ele diz que não sabe nada. Faz pouco caso. Desconfio. Com o Elvis morando na esquina quem ia querer dividi-lo com um brasileiro?

Anúncios