Inclinando-se em uma parábola assustadora o avião da LanChile faz suas evoluções para pousar no Aeroparque enquanto observamos lá embaixo o Monumental de Nuñes, estádio do River Plate, um dos maiores clubes de futebol deste país de fanáticos enlouquecidos. Só conhecerei o estádio assim, dos ares, circundado por largas avenidas e parques. Mas já é o suficiente para respeitar a grandiosidade de sua história.

Em Buenos Aires sempre se esbarra em algum time de futebol. No caminho para o restaurante de cozinha peruana passamos pela sede do San Lorenzo, que fica em alguma portinha secreta da Avenida de Mayo. Camisetas da seleção argentina se reproduzem pelas esquinas geométricas multiplicando o nome Messi – quase como que um mantra – pela cidade.

Em bares e restaurantes sempre há um espaço para alguma marca deixada por Maradona. Uma foto na parede com os proprietários, uma caricatura, um recorte de jornal ou uma camisa azul e branca autografada em uma espécie de altar.

Outro dia vamos à Bombonera, encravada entre as ruas estreitas da Boca, onde imigrantes genoveses ainda se aglomeram a resmungar pelas ruas e ajeitar produtos em frente de suas mercearias. Aqui o futebol parece mais visceral. O Boca Jrs. tem um apelo mais popular do que seu arquirrival, mais aristocrático e rico. Mas o futebol é o mesmo, e talvez tenha que ser um brasileiro, isento das paixões locais, a dizer isto de forma definitiva e convincente.

Dou o azar de ter estado na cidade em três oportunidades diferentes, sempre fora do calendário de jogos. Guardo em silêncio uma inveja daqueles que se vangloriam de já ter assistido o derby entre Boca e River. Mas em Buenos Aires o futebol transcende aos campos e se dilui entre a multidão. Respiro esse futebol extracampo. Penso no meu Botafogo e não fosse pelo amor inexplicável da torcida alvinegra eu diria, sem receio, que o país do futebol é a Argentina.

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