Juan Domingo Perón é um fantasma de uma esfinge que se esconde pelas ruas de Buenos Aires. É um vulto espectral que vez ou outra aparece no canto de uma sala, por trás de um veículo ou à sombra de uma árvore. Não se fala de Perón na cidade. Mas ele povoa todas suas calçadas, do Ayuntamiento ao mercado de Abasto.

Como um parente enfermo que a família quer esquecer, se chega a seu nome apenas por metáforas e suposições. No meio de uma conversa despretensiosa se fala de outro tempo e quando se vê, se fala de Perón. O assunto pode ser futebol, televisão ou economia. Sempre, sobre os argumentos, paira seu fantasma.

Ninguém o defende, mas ele continua ali esperando ser decifrado. No meio do caminho entre o nada e o paraíso. Perón é uma peça chave sem a qual parece que ninguém conseguirá chegar onde quer. Condição indispensável para ser argentino.

Não há consenso sobre quem foi o general, se foi conservador ou liberal; se afagou a esquerda ou serviu à direita; se foi um governante justo e bom ou um déspota tirano e manipulador. Amado e odiado, Perón segue pelo caminho do meio. Não era Boca, tampouco River. Torcia pelo Racing. A quem teria amado mais: a popular Evita ou a impopular Isabelita? Não se há de saber…

As perguntas vão se acomodando ao longo de quase um século e as indecisões de um personagem se transformam na indecisão que é ser argentino. Entre a Latinoamérica e a Europa, entre Buenos Aires e a cordilheira, um povo mestiço, gaúcho e incerto. Na vitrine de um escritório da calle Corrientes o fantasma do general contempla seu reflexo idêntico: ele se chama pátria argentina. 

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