O monte Fitz Roy se desenha no horizonte após quase dois dias viajando por imensidões desérticas e um ou outro povoado.

Chegamos a Chaltén, um vilarejo de alpinistas, fotógrafos e aventureiros, encravado na fronteira argentina, na base dos Andes. Na aldeia, que tem pouco mais de quinhentos habitantes e serve como ponto de controle da fronteira na intrincada geopolítica platina, pululam caminhantes, vagabundos como eu, que vêm até aqui procurar um sentido para a vida, ou talvez uma fuga dela.

Com o vento incessante e um frio glacial, resolvemos dar apenas uma percorrida nas poucas ruas do vilarejo antes de jantarmos no calor de um restaurante e nos prepararmos para uma série de pequenas expedições no dia seguinte.

Como a proximidade com o polo encurta as noites nessa época do ano, logo já é de manhã e o sono é interrompido pelos primeiros raios de sol que passam pela janela. Converso com um casal de tchecos que está por ali e me despeço para seguir em direção do Glaciar Viedma.

Uma hora até chegar a sua base, andando a pé, de ônibus e barco. Uma leve subida pelas rochas laterais até nos prepararmos para a escalada com grampões e roupas apropriadas. Depois são duas horas entre o glaciar, escalando paredes e ravinas de gelo em tons que vão do azul profundo ao branco acinzentado. Sob nossas botas o gelo de alguns dez mil anos. Apesar do frio, as camisetas acumulam o suor por baixo dos casacos de nylon e logo não se sabe mais se é calor, frio ou êxtase o que sentimos.

Após a caminhada sobre a geleira decidimos esticar até o mirante que encara o Fitz Roy, em uma das dezenas de trilhas do lugar. Já é final de tarde, mas o sol ainda está alto. Mais duas horas morro acima, talvez três, até chegar lá. O retorno é outro tanto. No caminho se vê um vale lindo, a flora dos Andes, sempre cheia dos caprichos, e o paredão nevado à nossa frente.

Aos poucos vou me convencendo que Chaltén não é uma cidade, é uma paisagem aberta à visitação. Cada lagoa, cada montanha ou escarpa tem uma função plástica silenciosa e bela. Nunca me senti tão distante, em algo tão selvagem e intocado. E era só o silêncio, o frio e o vento a fazer rabiscos na fotografia dos meus olhos.

Chaltén, tão pequena e só, foi o melhor dos destinos dessa viagem.

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