É fim de tarde quando chegamos a Río Grande e talvez o frio do entardecer e o vento me façam ter uma impressão mais triste e solitária da cidade. Penso logo em algum enclave no norte da Islândia, acreditando que existe um pacto secreto entre os estilos arquitetônicos das cidades polares.

Mirando a faixa de areia que protege a cidade das correntes frias do Atlântico olho para o mar e constato que ali à minha frente, há algumas centenas de quilômetros, estão as Ilhas Falkland/Malvinas. É o mais perto que posso chegar delas neste momento, aqui na cidade onde os padres salesianos desembarcaram há décadas, para colonizar esse último território, e talvez tenham se entristecido tanto como eu com essa guerra insana.

Mais do que um território em litígio, as ilhas representam uma condição de resistência do povo argentino, diante do estrangeiro invasor que há séculos fustiga. As pichações nos muros, os monumentos, os silêncios que se revezam nas mesas de bar. Tudo é lembrança e mágoa. Rancor antigo que lateja como ferida aberta. Por um punhado de terra muitos homens perderam a razão, dos dois lados.

Em Río Grande tudo ainda lembra as ilhas e a cidade não deixa de ter uma aparência de campo de guerra. Já em Ushuaia os monumentos dão a cor colorada a este episódio triste da história da América Latina. Em um deles há um poema, noutro a lista dos soldados mortos. Em bronze a silhueta das ilhas vazadas em uma escultura deixa resplandecer por entre seu relevo os raios do sol austral, sendo apenas observadas por mim e por uma bandeira argentina, que lá do alto eu não sei se chora ou se sorri.

Sempre gostei dos ingleses e, apesar de Brasileiro, sempre defendi a Argentina. Vejo hoje a questão das ilhas como um desentendimento entre dois amigos meus. Difícil escolher um lado quando os dois lados parecem estar errados.

Em Río Grande, cidade fria e cinzenta, deixo a minha perplexidade, olhando para um mar revolto onde em algum lugar, nas ilhas, alguém também deve estar olhando para mim.

Anúncios