Já tive muitos amigos que caíram na tentação de fabricar sua própria cerveja e é exatamente deles que lembro quando tomo o primeiro gole da cerveja Beagle, fabricada de maneira artesanal em algum canto escondido de Ushuaia.

Seria inocência demais pensar que o homem, no alto de sua engenhosidade secular, ao chegar aqui nesse fim de mundo, fazendo sapato, camisa, formão e arado, não deixaria de pensar em uma maneira de fabricar a sua própria cerveja. Talvez possa ter sido o tempo de espera nas docas pelo próximo carregamento vindo de vapor ou até mesmo a curiosidade sobre a fermentação em terras tão ao sul do globo. Possivelmente fruto de algum desafio ou aposta no canto de um balcão de bar ou, quem sabe, até um acidente. Mas o fato é que aqui, nessa distância tão grande de tudo, também se faz cerveja.

Acomodado em uma mesa no Almacen Ramos Generales, de frente para o canal, olho curioso cada item dos armarinhos desse bar que flerta graciosamente com a possibilidade de ser um antiquário. Entre quinquilharias e trajes de época elegantemente expostos prendo a atenção sobre uma saca de café brasileiro que deve ter feito um caminho parecido com o meu para chegar até aqui.

A cerveja logo desembarca em minha mesa em uma garrafinha pequena, acompanhada de uma torta salgada que acabará me servindo como almoço. Despejo a red ale no copo de cristal-polido-com-uma-precisão-germânica enquanto aprecio a espuma fina do colarinho. Bebo com calma perdendo meu tempo ao olhar a fauna das mesas ao redor.

Gole após gole vou apreciando uma cerveja que, possivelmente, não voltarei a beber. Mas como a gente lembra de tudo aquilo que foge da rotina e se torna extraordinário, se por um lado não voltarei a beber desta cerveja, por outro lado não esquecerei dela, que ocupará um compartimento especial em minha memória, mais precisamente no dia trinta de dezembro de dois mil e onze. Não penso em voltar a Ushuaia.

E talvez por isso, tudo fique mais bonito nessa manhã fria de um verão estranho.

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