Um ano novo começou nas últimas horas. Estou fora do fuso horário de meu país tentando calcular, afinal, se este ano que passou foi menor ou maior que o anterior. Entediado e confuso, deixo os cálculos de lado. Em breve partiremos da Terra do Fogo e, em poucas horas, estaremos de volta ao calor de Buenos Aires.

Comento com minha mulher a aventura que será voar sobre os Andes e conversamos sobre Antoine Saint-Exupéry, que planava por essas bandas no início do século passado, quando ele e mais alguns loucos implantaram o Correio Austral, abrindo uma nova fronteira da aviação nesse canto de mundo.

O aviador francês, tão conhecido e reverenciado em Florianópolis, viveu muitas de suas aventuras sobrevoando sozinho as paisagens que em breve também verei das alturas. Em sua obra Um sentido para a Vida ele chega a descrever uma viagem quase fatal que fez por aqui naquela época. É um de seus mais belos textos e chego à conclusão que se eu soubesse voar – de avião, asa delta, parapente ou de balão – talvez o achasse mais bonito ainda. Mas já me sinto um pouco feliz, de repente, por poder ao menos compartilhar alguma coisa com esse homem novo e tão humano que foi Exupéry.

Antes de chegar à Patagônia eu tinha uma ideia equivocada do vento austral, por achar que ele vinha direto do Polo Sul, soprando incessantemente para o norte. Na verdade e, ainda não sei por que, ele sopra para o oceano Atlântico, por cima do cume das montanhas brancas, justamente na direção contrária ao avião que decola rumo ao paredão de gelo.

Ao fazer uma curva de noventa graus para o norte eu espero a qualquer momento a turbulência exuperyana dos ventos do Pacífico, mas talvez a distância de quase cem anos que nos separam, ou o tamanho da aeronave, minimizam o choque com a corrente de ar e voamos até El Calafate praticamente ilesos e tranquilos.

A escala na cidade de Kirchner é feita com alguns solavancos e logo estamos de volta à imensidão do céu azul patagônico. La embaixo uma vastidão de terra, muito petróleo e algumas almas vagam a esmo. Em algum lugar estará o aeroporto de Puerto Madryn, onde tantas vezes o francês pousou e hoje, merecidamente, carrega seu nome. Tento encontrar a pista de pouso daqui de cima, mas a busca é mais difícil para aquele que não tem os olhos de um aviador.

Pensando em Exupéry, no principezinho, na serpente e em tantas outras coisas adormeço com a cabeça recostada na janela do avião. E a Patagônia vai aos poucos ficando para trás, entre um ou outro sonho que jamais lembrarei.

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