Os antigos dizem que Itajaí já foi um grande brejo. Com dois rios e inúmeros riachos que sazonalmente encarregavam-se de abastecer com a água que descia dos morros os charcos da cidade, a história de Itajaí é a história de uma cidade que venceu as águas. Com grandes enchentes em 1880, 1911, 1983 e 1984, os itajaienses aprenderam a tratar com intimidade seus riachos e rios. Entre eles o ribeirão da Caetana, que além do nome poético, ocupa um espaço especial na memória e na vida de cada um de nós.

Tenho poucas recordações de quando cheguei a Itajaí. A cidade já não era um banhado. Eu tinha sete anos então e só lembro que meu pai alugou uma casa na Rua Umbelino Damásio de Brito, número 82, centro. Era uma casa grande com os fundos para um terreno baldio gigantesco, para as minhas proporções na época. O terreno era conhecido, e acho que é conhecido até hoje como pasto do Ada. Na verdade Ada era como chamavam o dentista Eurico Adam, que tinha no local um terreno que era extensão das terras que pertenciam a família Tedeo, famosa na cidade. Acabou que tudo ficou sendo conhecido como pasto do Ada, e foi assim que passamos a chamar também. As terras mais tarde teriam sido vendidas para o antigo vice-prefeito Maurício Reis, que, ao morrer no decorrer do mandato, comoveu toda a cidade e levou uma multidão, inclusive eu, para o velório do seu corpo no salão paroquial da Igreja Matriz. Foi meu primeiro velório e minha mãe me pagou uma coca-cola no final, apesar de não ser domingo.

O pasto teve um papel muito grande no imaginário de cada pessoa que vivia perto dele. Lembro a polêmica que foi criada nos arredores quando corria a notícia de que o grupo Angeloni havia comprado o terreno para construir uma unidade da rede ali. Tinha gente a favor, gente contra. Os comerciantes desesperados, a comunidade ansiosa em saber se era verdade ou não. Até hoje ninguém fez nada e, ainda bem, o pasto continua intacto. O Cássio, figura conhecidíssima no bairro e na cidade, chegou a ampliar o mini-mercado onde trabalha junto com Pedro, Paulo e Osvaldo, seus não menos conhecidos irmãos. Fiz uma visita ao mercado deles enquanto escrevia o texto e eles continuam alegres e simpáticos como sempre foram. Quando eu tinha meus oito ou nove anos, queria ter uma mercearia para ser igual ao Cássio. Ele e seus irmãos foram exemplos pra muito moleque.

O pasto sempre teve um valor sentimental muito grande para mim. Era para lá que eu fugia com meu cavalo Silver, quando perseguido por bandidos e salteadores. Era para lá também que eu, Felipe the Kid, pretendia ir quando Miss Cíntia, minha namoradinha, deixasse de lado suas atividades no saloon da cidade fantasma e concordasse em fugir comigo. Em um cantinho do pasto nós construiríamos um ranchinho e seríamos felizes com nossos filhos e netos.
Foi para o pasto também que meu papagaio Chico voou para nunca mais voltar. Chorei muito, mas ele não voltou. Não cheguei a fazer análise mas fui falar disso com o padre. O padre Davi Coelho era nosso psicólogo. Hoje nem lembro o que ele me falou sobre o Chico. Mas esqueci do assunto e acabei me entretendo com Bijou nossa cadela, que foi minha fiel companheira até que saímos dali e fomos morar num apartamento. Não sei que fim levou Bijou. Também não conversei com o padre sobre isso. Acho que ele teria uma resposta para o problema, de qualquer forma.

O pasto além de ser tudo isso, era cruzado pelo ribeirão da Caetana, de ponta a ponta, fazendo um L no terreno. A “preta Caetana”, como era conhecida, viveu na virada do século e tinha uma casinha de madeira na foz do ribeirão que levou seu nome. A partir do pasto, o córrego segue rumo norte, atravessando a rua Zózimo José Peixoto e seguindo em linha reta quase até a praça da matriz, onde dobra e passa por baixo das ruas Anita Garibaldi e Alexandre Fleiming, para reaparecer novamente e, logo depois, ser entubado. Passando por baixo do Hipermercado Vitória o ribeirão deságua no rio Itajaí-Açú, entre a Prefeitura e a Capitania dos Portos, onde, por alguns metros, respira mais um pouco. Antes de chegar no pasto o ribeirão passava por detrás da distribuidora Muller e da bicicletaria do Turnes, onde desaparecia por baixo da terra para não aparecer mais. Sua origem, para todos que perguntei, era desconhecida. Pesquisando acabei por descobrir que o ribeirão, assim como os outros riachos que cortam a cidade, eram desconhecidos e omitidos pela maioria dos “historiadores oficiais” de Itajaí. Chegando até a haver uma confusão entre os habitantes sobre qual seria o ribeirão da Caetana, o ribeirão Ardigó e outras valas da cidade. O mapa da prefeitura, disponível em sua página na internet, também esquece do ribeirão, como muitos dos entrevistados esqueceram. Quando se fala do ribeirão, alguns levantam as sobrancelhas e franzem a testa admirados e, como se reencontrassem um velho amigo, dizem – Ah, esse aí é o ribeirão da Caetana??

A confusão chega até na Câmara dos Vereadores, onde indicações de melhorias em valas que deságuam no saco da Fazenda recebem o nome de “melhorias no ribeirão da Caetana”, enquanto o verdadeiro ribeirão está no outro lado da cidade, e continua sem melhoria nenhuma. O ribeirão é nosso ilustre desconhecido. Todos já ouviram falar mas ninguém sabe realmente de onde vem o córrego.

A esse respeito o professor e colega de jornalismo Hélio Magru Floriano alertou-me sobre o surgimento do Ribeirão da Caetana, na enchente de 1880, que havia sido transcrito para as páginas da literatura itajaiense pelo jornalista e cronista Juventino Linhares (1896-1968), que diz:

Os mais velhos vaticinavam lágrimas e ruínas e recordavam o medonho temporal de 1880, trinta anos já decorridos, quando as águas do rio Pequeno, em cujas cabeceiras diluvial tromba d’água fizera descer da serra e dos montes enormes enxurradas que se transformavam em cascatas violentas que extravasavam os seus excessos pelas baixadas e pelas planícies, crescendo as águas de tal maneira que tudo vinham arrasando e, represados aqui em baixo pelo volume também exagerado do Itajaí-Açú, tomaram novo curso e invadiram a cidade, solapando alicerces e derrubando casas, cavando crateras, espalhando pavor, semeando destruição e desespero, formando rios de novos afluentes como foi o caso do ribeirão da Caetana, que até, então, não existia, chegando até a desenterrar esquifes que guardavam corpos e ossadas que descansavam em paz no primitivo cemitério aos fundos da igreja velha, arrastando-os na sua fúria desordenada e macabra para a vastidão do Atlântico, onde eram estraçalhados pela agitação das ondas.

Foi preciso que Juventino Linhares, com suas crônicas no Jornal O Popular, de 1958, explicasse o assunto. Mas mesmo assim o ribeirão não podia surgir assim do nada, devia haver um desvio de outro ribeirão, algum charco, nascente, enfim, algum lugar que fosse o ponto inicial do curso. O jeito foi pegar o carro e seguir o ribeirão. A partir da rua Brusque o córrego, em sentido inverso, segue até a rua Alberto Werner, correndo paralelo a ela até os fundos do colégio Francisco de Paula Seara onde, contornando a Sorveteria Seara atravessa A Rua José Eugênio Muller, sempre subterrâneo, passando por baixo da Gráfica Reis até chegar a um charco nas proximidades da Igreja Dom Bosco, próximo da curva que o ribeirão Ardigó faz nas imediações. Ao que tudo indica, ali a água brota e faz um pequeno canal que forma a nascente do ribeirão.

O ribeirão nasce franzino, pequenino, quase Severino. Hoje, ao que tudo indica, as águas estão secando e o ribeirão só existe porque é alimentado pelos esgotos dos três bairros por onde passa. Nery Lima, meu companheiro de partido, conta-me que quando era menino ainda tomava banho no córrego. “Saíamos do Colégio São José, tirávamos a roupa e tomávamos banho ali onde hoje é a prefeitura,” lembra, “e a água era cristalina”, completa. Esta foi uma das muitas outras histórias que colhi nestas andanças em busca do ribeirão da Caetana.

Conheci gente que tinha saudades do tempo em que era um riacho de verdade. Conheci gente que teme que com a ampliação do porto e com a construção de um futuro supermercado os poucos trechos do ribeirão que ainda podem ser vistos desapareçam de vez. Gente que teme que o ribeirão viva somente na poesia dos românticos da cidade. Conheci gente que morava sobre o córrego e não sabia que aquele era o famoso ribeirão, mas não encontrei ninguém que nunca tivesse ouvido falar dele. A impressão que tive foi de que mais do que cortar a cidade, o ribeirão, de alguma maneira, atravessou a vida de muita gente.

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