Certa vez li uma entrevista com um autor chileno que falava de seu estranho país, espremido entre o oceano e a cordilheira, aprisionado pelo gelo polar ao sul e pelo deserto ao norte. Na entrevista ele mencionava a grande curiosidade que os chilenos, vivendo em um dos países mais isolados do mundo, tinham sobre tudo o que havia além de suas bordas. A vontade de olhar além da cordilheira e ver o que havia lá.

Nasci e passei boa parte de minha infância na fronteira entre o Brasil, Paraguai e Argentina. Não recordo a primeira vez que atravessei a divisa entre os países, em uma das muitas idas aos supermercados argentinos e paraguaios que, na época, eram rotineiras para brasileiros que moravam nas cercanias.

Mas embora frequentes, as incursões estrangeiras foram se perdendo no armário da memória, com o passar dos anos e o distanciamento de minha meninice. A curiosidade em ver o que havia além de nossas margens voltou aos poucos a povoar minhas intenções quando recebi um convite para uma viagem ao Chile, via terrestre, em pleno inverno. Sem hesitar embarquei em uma madrugada fria, levando apenas a mochila e um mapa da Argentina. No final do dia já chegávamos em São Borja, cidade fronteiriça onde eu reencontraria um país do qual sequer lembrava.

Após a janta na terra de Getúlio passamos pela aduana e a paisagem argentina foi sendo aos poucos tomada pela penumbra. Andamos dezenas de quilômetros junto à fronteira até que a carreira de pequenas luzes brasileiras foi desaparecendo no horizonte negro. Quando paramos para o último lanche da noite, em um posto de gasolina, todos já reparavam nos produtos diferentes, nos jornais em espanhol e em toda a sorte de símbolos e sinais que já avisavam que estávamos longe de casa.

De volta à estrada, a curiosidade em ver o país novo e em ampliar minhas fronteiras foi aos poucos sendo superada pelo cansaço e pelo sono. Quando chegamos às cidades de Paraná e Santa Fé minha cabeça já pesava e mal pude ver a fileira de casas baixas e tristes daquele interior pobre da Argentina. Na minha mente tentava organizar as informações: mesopotâmia argentina, guerras platinas, túnel sob o rio Paraná. Urquiza, Rosa e Artigas se confundiam entre generais argentinos e uruguaios que por ali desfilaram ou não suas tropas, buscando caminhos assim como eu buscava entender onde estava em meu mapa rodoviário.

Cansado e tomado pelo sono, decidi fechar o mapa e os olhos. Depois de duas décadas eu voltava a dormir em solo argentino enquanto o ônibus avançava célere derrubando, uma a uma, as minhas fronteiras. Li em algum lugar que ampliar nossa noção de mundo não deixa de ser uma forma de se engrandecer. E naquela noite, em algum lugar da província de Santa Fé, eu dormi como um gigante.

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