Foi na primeira hora da manhã quando entramos de volta na Argentina pelo Paso Los Libertadores, deixando o Chile para trás. Havia ao menos um metro de neve em cada lado da rodovia e foi assim até chegarmos ao pé da cordilheira e alcançarmos o rio Mendoza, naquele pedaço de mundo onde tudo parece estranhamente acobreado.

O ônibus corria como uma seta solitária pela rodovia e conforme a tarde foi caindo, uma mistura de cansaço, tédio e alguma outra coisa foi tomando conta de todos. A ansiedade de chegar em casa talvez pensasse no sono como um encurtador de horas. Uma máquina do tempo na qual se pode unicamente acelerar os minutos até o futuro desejado.

Como o frio ainda castigava e pouco podia se ver lá fora, Dega e eu fizemos uma breve conferência e achamos melhor abrir uma das garrafas de Pisco que havíamos comprado em Viña del Mar para aquecer o corpo e manter a boca ocupada. Optamos por uma garrafa envelhecida alguns anos, cujo sabor e perfume amadeirado deixou aquelas horas menos monótonas e solenes.

Mal o Pisco começou a fazer efeito e confundir as ideias, algum de nós comentou sobre como os venezuelanos que encontramos no Chile gostavam dos sambas brasileiros, em especial daqueles da década de setenta. Logo estávamos cantando baixinho entre uma multidão de passageiros sonolentos que adormeciam sonhando em sei lá o que.

De Ataulfo a Pixinguinha, passando por Cartola e Adoniran, a Ruta 7 foi aos poucos se enchendo de bambas e breques. Batucando nas costas de um violão, ou com um ovinho de percussão em cada mão, foi-se completando a noite escura e fria com os versos mais bonitos e saudosos da música brasileira.

No país da milonga, do tango e do chamamé, naquela noite, algum argentino, se apurasse bastante a audição, poderia ouvir de longe um ônibus onde alguém, por saudade de casa, embriaguez ou amor ao samba cantava baixinho madrugada a dentro: “moro em Jaçanã e se eu perder esse trem, que sai agora às onze horas…”

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